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Diretor de documentário sobre Aécio comenta a divulgação do vídeo na internet

26 de junho de 2008

O documentário Gagged in Brazil, divulgado pela internet e visto por mais de 40 mil pessoas no youtube, trata da censura da mídia mineira praticada pelo governador Aécio Neves.

Em entrevista concedida ao portal Vermelho, o diretor do filme, Daniel Florêncio, comenta a divulgação na internet. “É interessante notar que o governo de Minas acusa a oposição ao governo de espalhar meu documentário. O único responsável por espalhar meu documentário foi eu próprio, que o enviei por email para minha lista de contatos. O que aconteceu a partir daí é fruto da organicidade da própria rede”, afirma.

Formado em Rádio e Televisão pela UFMG, Daniel Florêncio fez mestrado em Art and Media Practice pela University of Wesminster, em Londres, onde mora há três anos. Em BH e na Europa, já foi produtor, editor, assistente de direção, diretor de arte e diretor.

Clique aqui para assistir ao vídeo. Abaixo, a entrevista na íntegra.

De onde veio o interesse para fazer um vídeo sobre a relação do governo Aécio com a imprensa?Tive a oportunidade de conhecer inúmeros jornalistas de diversos veículos, não só de Minas, mas do Brasil todo. Uma coisa é ouvir boatos e rumores, outra coisa é ouvir as histórias da boca das pessoas que viveram essas experiências. Pela experiência de trabalhar com mídia aqui no Reino Unido, onde a imprensa é exemplar, desenvolvi um interesse genuíno pelo assunto e passei a observar daqui. É inevitável comparar a realidade em que eu estou inserido, de uma imprensa livre, atuante, responsável, com a imprensa brasileira, que mais parece uma grande piada de mau gosto. Não estou me referindo aos profissionais, mas aos veículos.

Meu objetivo não foi político, como tenta argumentar o governo Aécio. Tentar levar a argumentação para o campo político, dizer que a oposição ao governo divulgou o filme e que eu tenho interesses político-partidários são formas de tentar tapar o sol com a peneira e demonstram uma tremenda falta de habilidade por parte desse governo de discutir o assunto seriamente. A questão aqui não é partidária. O buraco é bem mais embaixo…  

O cansaço e a frustração dos jornalistas não só em Minas, mas no Brasil, é evidente ao se depararem com empresas jornalísticas e de mídia com uma mentalidade tão tacanha e com governos que se aproveitam disso. Reflexo disso vê-se em todos os cantos. Paulo Henrique Amorim com seu blog. Luiz Azenha com seu blog. Luiz Nassif com seu dossiê sobre a Veja. O Movimento dos Sem Mídia, criado por Eduardo Magalhães, que nada mais é do que um simples cidadão que se inconformou com o que veio observando e criou uma ONG.

A idéia partiu daquela história da repercussão da matéria do Le Monde na imprensa mineira, quando só se noticiou as citações positivas sobre o governo Aécio…. Mas meu primeiro objetivo foi puramente profissional: contar uma história interessante para a audiência da Current TV, que foi quem me comissionou para produzir o filme. O segundo objetivo foi alimentar esse diálogo sobre as relações entre poder e mídia que já vem ocorrendo, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

 A idéia do filme partiu na realidade quando pude ler o texto original da matéria do Le Monde. As notícias vindas de Minas na época eram de que o “governador tinha saído no Le Monde”. O que chegou aos ouvidos de todo mundo foram apenas os pontos positivos do artigo, porém o Le Monde também trazia críticas de natureza política, mencionava o documentário ”Liberdade, essa palavra” e ainda entrevistaram o editor de um jornal de circulação nacional, que disse que “gostaria de avaliar as políticas do governo a luz de uma imprensa livre”. Ninguém comentava nada disso e fiquei imaginando o porquê. Quando fui pesquisar o que a mídia havia dito sobre o artigo fiquei chocado. Foi no mínimo cômica a cobertura da imprensa, pra não dizer triste. Meu pensamento na hora foi: ”está parecendo a imprensa do Zimbabwe”.  O vídeo foi produzido para a Current TV. Podia contar um pouco sobre o que é a Current? Qual a proposta desta TV?A Current TV é um canal de televisão criado por Al Gore [ex-vice-presidente dos EUA] e por Joel Hyatt aproximadamente há 3 anos, nos EUA. O principal objetivo do canal é democratizar a mídia. Ela tem uma forte presença online e estimula os telespectadores a produzirem conteúdo para o canal sobre temas que eles, os telespectadores, consideram relevantes. Normalmente, você vai ver ali temas e assuntos que estão fora da agenda dos grandes grupos de mídia.

Al Gore conta que decidiu criar o canal quando estava um dia assistindo a cobertura da CNN sobre a Guerra do Iraque e percebeu que a cobertura do canal tinha muito a ver com o fato de que a maioria dos americanos acreditava que Saddan Hussein tinha participado do ataque ao World Trade Center. O que é uma afirmação completamente infundada e, no entanto, um dos fatores que levava uma parcela da população a apoiar a Guerra. Eu, particularmente, acho que ele também percebeu que ele teria mais poder nas mãos para influenciar e mudar algo se tornando um empresário de mídia. O que a experiência nos prova que é verdade se observamos Rupert Murdoch da NewsCorp, a família Marinho da Globo, Ted Turner da Turner, e por aí vai…. A diferença é que ele vem fazendo isso de uma forma bacana, descentralizando a agenda e estimulando a participação e a multiplicidade de perspectivas.

O vídeo fala sobre censura e tem sido muito divulgado na internet. É legal até traçar um paralelo, porque o filme, talvez, sofreria grande dificuldade para ser exibido em Minas, mas com a internet está sendo amplamente assistido. Como você vê a internet? Até que ponto ela democratiza a mídia?A internet democratiza a mídia na medida em que ela começar a efetivamente fazer frente aos outros veículos de massa em termos de audiência. Enquanto a imensa maioria das pessoas continuar ligada na tela da Globo’, mas ainda sem acesso à internet, não haverá democratização. Mas a diferença básica entre a internet e outros veículos é que na internet não existe o ”Gatekeeper”, aquele que vai decidir o que é relevante e o que não é, o que e como vai ser dito. Na internet os “Ali Kameis” [diretor da Rede Globo] da vida ficaram obsoletos. Na internet os grandes grupos de comunicação perdem poder. Eles continuarão sendo grandes e relevantes, porém diminuem de tamanho e tem que competir por audiência e verbas com outras centenas de provedores de informação. A democratização acontece porque há fragmentação. 

Quanto à presença do filme na internet, é interessante notar que o governo de Minas acusa a oposição ao governo de espalhar meu documentário. O único responsável por espalhar meu documentário foi eu próprio, que o enviei por email para minha lista de contatos. O que aconteceu a partir daí é fruto da organicidade da própria rede. Aqueles que têm interesse e acham o assunto interessante e relevante, repassam, comentam, postam em seus blogs… Se meu vídeo foi muito divulgado, falado e assistido é por que, no mínimo, muita gente se interessa pelo o que está sendo dito ali.

Nos EUA a campanha de Barack Obama para concorrer à presidência também cresceu na rede. Fora dela ninguém dava importância a ele, até que a coisa foi crescendo e ele acabou virando o candidato do partido democrata.

Qual a repercussão que o vídeo teve no exterior? Existe um conhecimento sobre a censura do governo mineiro na imprensa?Meu documentário aqui se soma a vários outros documentários sobre o mesmo tema, mas com foco em diferentes situações, em diferentes países, e exibidos por diferentes canais de televisão. O comentário geral é de que ”é assim em todos os lugares”. Eles são muito pouco ingênuos aqui. O Reino Unido, temos que nos lembrar, é o país que ficou conhecendo, muito antes dos brasileiros, o histórico da TV Globo com o documentário ”Além do Cidadão Kane”….

Fonte: Vermelho

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