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Entrevista: Chega de ingenuidade

26 de agosto de 2009

Para o jornalista Altamiro Borges, a mídia hegemônica não vacila na
defesa de seus interesses. Vacilo foi acreditar na sua neutralidade

Por: Osvaldo Colibri Vitta


Chega de ingenuidade

Altamiro acaba de lançar o livro A Ditadura da Mídia (Ed. Anita Garibaldi). (Fotos: Jailton Garcia)

O jornalista Altamiro Borges, o Miro, acaba de lançar o livro A
Ditadura da Mídia (Ed. Anita Garibaldi). O trabalho explica a origem da
concentração da mídia brasileira nas mãos de poucas famílias e sua
relação umbilical com o poder econômico dominante. E torna-se
referência de consulta em perfeita sintonia com o ambiente de
preparação para a Conferência Nacional de Comunicação, em dezembro – na
qual os movimentos preocupados com a construção de uma comunicação de
massas mais decente e democrática esperam emplacar propostas que pautem
ações futuras do poder público. O autor começou a vida de jornalista
cobrindo as greves do ABC, no final dos anos 1970, quando morava na
Vila Califórnia, divisa de São Paulo com Santo André. Trabalhou no
jornal da Arquidiocese de São Paulo, com dom Paulo Evaristo Arns –
“experiência riquíssima” –  e participou do jornal Tribuna da Luta
Operária (1980-1988). Entre 1988 e 1994 foi assessor de imprensa e de
formação no Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente
de SP (Sintaema). Depois assumiu a área de formação do PCdoB. Há três
anos tem um blog (altamiroborges.blogspot.com) e dirige o Portal
Vermelho. No último dia 16 de julho, Miro conversou longamente com o
apresentador do Jornal Brasil Atual, Osvaldo Colibri Vitta, no programa
que vai ao ar diariamente das 7h às 8h (98,1 FM), na Grande São Paulo.
Leia a seguir os principais trechos.

De onde vem essa ditadura da mídia no Brasil?

O pensador italiano Antonio Gramsci escreveu que, quando os partidos
das classes dominantes estivessem em crise, quem ocuparia o papel
desses partidos seria a imprensa. Isso ele escreveu na década de 1920 e
hoje está mais atual do que nunca. Existem 40 grupos, no máximo, que
dominam a mídia mundial. É grande a capacidade de manipulação: 80% do
que a gente recebe de informações provém dos Estados Unidos, com CNN,
Fox, agências, os grandes jornais. Deu no NYT virou verdade! E há
mentiras grossas. No episódio da invasão do Iraque, por exemplo, foram
várias as mentiras – do governo Bush – reproduzidas sem nenhum senso
crítico pela imprensa nos EUA, e também aqui no Brasil.

Mas isso acontece também com as notícias de economia, não?

As grandes empresas de comunicação do mundo têm relação umbilical
com o capital financeiro. Nos EUA grandes órgãos de imprensa estão
vinculados a esse capital, disputam ações, na Europa idem, há um
casamento. E no Brasil com um agravante. Vários países no mundo proíbem
o que se chama de propriedade cruzada – que é uma mesma empresa ter
vários veículos em diferentes áreas. No Brasil isso não é proibido.
Então, se no mundo são 40 grupos, aqui são nove famílias que dominam
80% dos meios de comunicação, embora dessas nove algumas já estejam
meio capengas.

E na história tem o caso do Assis Chateaubriand, que foi pioneiro – antes da chegada da televisão já tinha jornais e rádios.

É. Começou com jornais, depois monopolizou nas rádios e na TV e já
vai ser substituído pelo (Roberto) Marinho. A Globo é – sem nenhum
demérito para a qualidade de suas produções – uma rede que cresceu no
regime militar, porque interessava ao regime ter uma rede nacional com
muita influência. Ela nasce com a ditadura, em 1964, e cresce, nesse
sentido de propriedade cruzada, jornal, rádio e TV, até dominar toda a
produção de comunicação. É evidente que há exceções, jornalistas que se
portam muito bem, com dignidade, mas esses nove grupos, no geral,
difundem as ideias das classes que pagam, que dominam. A manipulação é
antiga. A atuação da mídia é um dos fatores de desestabilização do
governo Vargas, que levam àquela crise e ao seu suicídio.

Altamiro BorgesNa
Constituinte de 1988, pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que a
mídia foi contra todas as bandeiras de interesse do trabalhador

Já existia o Partido da Mídia?

Pois é, já existia. Essa mesma mídia vai ter um papel ativo em 1964.
E é interessante como hoje o Estadão está repetindo essa história de
que o governo Lula é uma “república sindical”. Isso é um bordão de
1964, da Folha de S.Paulo, do Estadão, que colocavam que o João Goulart
queria instaurar a república sindicalista no Brasil, e essa foi uma das
razões de terem defendido o golpe contra o Estado de Direito. Durante a
ditadura, a Globo teve um papel muito ativo, de dourar aquela pílula,
falar que o regime militar era uma beleza. O regime militar vai bancar
todo esse sistema de telecomunicações, investir em rede de satélites,
que é o que permite a expansão da Globo. Às vezes me dói ouvir umas
figuras falando em democracia no Brasil… com todo o respeito ao
Otávio Frias, como empresário; como jornalista, a família Frias apoiou
o golpe. Mino Carta diz que algumas Kombis que transportavam jornais da
empresa foram cedidas para levar presos políticos para tortura no
DOI-Codi. Nos anos 1970 a Folha da Tarde, jornal do grupo, era
porta-voz dos militares. Como diz outro grande jornalista, o Mauro
Santayana, era o jornal com a maior “tiragem” do Brasil: o que tinha de
“tira” lá dentro… (risos).

É. Tiravam o som.

Eles tiveram a capacidade de transmitir o comício da Praça da Sé,
aquele que teve ais de 200 mil pessoas, como se fosse um ato pelo
aniversário da cidade de São Paulo.

Depois, na época das Diretas Já, teve o caso da Globo?

Foi vergonhoso. Lembro uma ocasião na greve (dos metalúrgicos do
ABC) de 41 dias, em 1980. A Globo teve a capacidade de filmar a
Volkswagen, na época com 42 mil operários, antes da greve, com a linha
de montagem funcionando, e filmar uma assembleia em Vila Euclides antes
de começar. Aí não precisava falar nada, mostrou só as imagens: a
assembleia vazia, só não explicaram que ainda não tinha começado, e a
Volks funcionando. Para o trabalhador, o que era aquela mensagem? Que a
greve tinha furado. No dia seguinte, me lembro, os operários, bravos em
função da manipulação, porque eram imagens falsas, foram para cima das
peruas da Rede Globo lá em Vila Euclides. Eu estava lá, eu vi. Foi o
Lula que teve de dizer para o pessoal não quebrar as máquinas, não
bater em ninguém, porque a culpa não era dos jornalistas, e sim da
empresa. Depois, na Constituinte de 1988, uma pesquisa da Fundação
Getúlio Vargas mostra que a mídia foi contra todas as bandeiras de
interesse dos trabalhadores. Todas: redução de jornada de 48 horas para
44 horas, direito de sindicalização do funcionalismo público…

Direito de greve.

O funcionalismo público não tinha direito a ter sindicato. A
Constituinte de 1988 garante. As grandes questões nacionais de defesa
das empresas estatais, o papel mais ativo do Estado. Esse estudo da FGV
é impressionante. Tudo o que interessa ao povo, à nação brasileira, a
mídia foi contra.

O que foi feito no atual governo para que esse panorama
mudasse? Porque a democratização dos meios de comunicação não acontece.
As rádios comunitárias ainda não têm espaço. Não há lei que coíba o
monopólio.

O primeiro mandato do governo Lula foi muito tímido em relação ao
monopólio, esse latifúndio da mídia. Teve até uma certa ingenuidade e
uma ilusão. Achava-se que, se não se comprasse briga com a mídia, essas
nove famílias não bateriam no governo. Vou falar o crime sem falar o
criminoso: lembro de um ministro muito poderoso do governo Lula que
chegou a dizer em uma reunião que tinha a Globo na mão, que dominava a
Globo em função dos anúncios publicitários. Ali foi pura ingenuidade.
No primeiro mandato eu acho que foi uma postura muito ruim do governo
Lula. Refletiu-se, por exemplo, no padrão de TV digital escolhido pelo
Brasil, o japonês, que serve à Globo, sendo que nós já estávamos
fazendo todo o desenvolvimento do padrão digital brasileiro. Não é para
menos que o ministro das Comunicações é um funcionário importante da
Globo, com todo o respeito ao Hélio Costa, mas é isso que ele é. O
primeiro mandato foi de ceder. Até na questão das rádios comunitárias.

Você acha que Lula pensa muito na conciliação, para poder governar melhor?

Na governabilidade. Tentava neutralizar a mídia, alguns até tinham a
ingenuidade, na minha avaliação, de querer ganhar a simpatia da mídia.
Fechou mais rádio comunitária que o Fernando Henrique Cardoso. É
horrível isso.

E agora?

A impressão que me dá é que no segundo mandato (o governo) acordou
um pouco. A vida demonstrou que era ingenuidade. Achava-se que a Globo
ia ter uma postura de, no mínimo, neutralidade, e o que a Globo teve na
eleição não foi neutralidade – ela é que garantiu o segundo turno. O
Marcos Coimbra, do Vox Populi, chega a dizer: “Eu nunca vi uma
cobertura da mídia tão envenenada na história do Brasil”. Teve o papel
da Veja, isso não é uma revista, é uma plataforma da direita
reacionária, diz as coisas e não comprova: “dinheiro de Cuba”,
“dinheiro das Farc” e “filho de presidente”, vai falando… Como o
governo Lula não conseguiu neutralizar a mídia, creio que no segundo
mandato acordou um pouco, no meu entender ainda tímido. Mas acho que
tem manifestações positivas. A primeira – e aí vale um grande mérito ao
ex-ministro da Cultura Gilberto Gil – foi a ideia da constituição de
uma TV pública no Brasil. Porque o que nós temos aqui é o modelo
estadunidense, em que só vale TV comercial, privada, e não vale a
pública. É diferente da Europa, por exemplo, onde você tem TVs públicas
de peso, caso da BBC, de Londres, dos canais de Portugal, da França.

Mas encontra uma resistência violenta.

Sim, violenta. Para essa mídia hegemônica, ter uma mídia pública de
qualidade, que mostre o outro lado, que estimule mais a diversidade
cultural, que pegue mais a questão regional, que não tenha uma visão só
a partir de São Paulo e Rio, é um perigo. Como diz o professor Laurindo
Leal Filho, da USP, “o povo vai comer um biscoito bom”. Porque até hoje
está comendo um biscoito ruim. Daí pode tomar gosto pelo bom.

Com a reeleição de Lula, o povo, nas urnas, mostrou…

Que a mídia hegemônica não faz a cabeça. O povo não quer retrocesso
e sentiu que, apesar dos problemas no governo Lula, mudanças
importantes estão sendo feitas. Acho que o governo Lula percebeu também
e começa a operar novas mudanças. A TV pública é a principal delas,
mesmo assim ainda tímida.

Você participa do Fórum de Mídia Livre, que começou aqui em
São Paulo e tem reuniões pelo Brasil todo. O que deve ser feito e o que
está sendo feito?

Eu acho que tem algumas bandeiras, algumas reivindicações
fundamentais. Precisamos fortalecer uma empresa pública (de
comunicação). Precisamos discutir todas as concessões (de canais de TV
e de rádio), não tem controle social nenhum, não se respeita a
Constituição, no que diz o artigo referente à comunicação, não se
respeita a diversidade regional, a produção independente. Acabam
servindo a interesses muito mesquinhos. Então, a gente deveria
rediscutir as concessões públicas, porque são públicas, é ar, é do povo
brasileiro. Outra questão fundamental é discutir publicidade, porque
hoje o grosso da publicidade oficial vai para essas empresas. Na
verdade, vai para alimentar cobra, vamos dizer assim (risos). Vai para
a Globo, para a Veja, Folha, Estadão, O Globo. Por que essa publicidade
não vem para as entidades do movimento social? Por que não para uma
rádio que tenha pluralidade de opinião? Outra coisa é que precisamos
discutir o marco regulatório das comunicações, tanto pelas aberrações
que temos no passado como pelas propriedades cruzadas de que falamos
aqui, como pelo que vem no futuro, que é a convergência digital. Ou a
gente estabelece um novo marco, ou a invasão estrangeira vai ser
violentíssima e o processo de monopolização vai crescer.

Está prevista para dezembro a Conferência Nacional de Comunicação.

Se não tiver pressão, não sai, por causa do poder da mídia
hegemônica. A pressão desses grupos é tão violenta que, se bobear, não
sai. E a Conferência seria um momento de discutir esses e outros temas.
Ou seja, é preciso aumentar a participação da sociedade no debate sobre
a comunicação, na minha opinião. Não há democracia no Brasil se não
houver democratização da mídia.

Fonte: Revista do Brasil

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