
Na educação, milhares de professores foram afastados das salas de aula no ano passado por problemas como ansiedade e depressão
Os dados do Ministério da Previdência Social divulgados no início deste ano revelam que o mercado de trabalho brasileiro tem sido responsável por uma crise de saúde mental. Os números oficiais mostram que o país registrou, em 2025, um novo recorde negativo, com o maior número de afastamentos por transtornos mentais em uma década.
Foram mais de meio milhão licenças concedidas, e a maior parte desses afastamentos está concentrada em dois diagnósticos: ansiedade (166.489) e depressão (126.608). Somados, os dois motivos cresceram 15% em relação ao ano anterior e já formam a segunda maior causa de afastamento do trabalho no Brasil, perdendo apenas para as dores nas costas e os problemas na coluna.
Em 2024, o país já tinha batido esse recorde, com mais de 470 mil afastamentos por transtornos mentais. Na época, o governo propôs mudanças na norma regulamentadora nº1 (NR-1), que passaria a incluir a saúde mental entre os itens fiscalizados no ambiente de trabalho, mas, em decorrência da pressão das empresas, o prazo para entrada em vigor da nova regra foi adiado para maio deste ano.
Para tratar desse assunto na área da educação, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) realizou, no início de fevereiro, a live “Da norma à ação: NR-1 como ferramenta sindical na luta pela saúde mental das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação” (clique aqui).
Precariedade
Segundo especialistas, relações precárias de trabalho, jornadas extenuantes, baixos salários, medo do desemprego, cobranças por desempenho, volume excessivo de tarefas e falta de autonomia no ambiente profissional são alguns dos fatores responsáveis pelo quadro atual. Sem mudanças estruturais, avaliam os pesquisadores, a tendência é de crescimento nos números e de agravamento da situação.
“É um retrato caótico, que evidencia o mal-estar da classe trabalhadora brasileira. Os números reafirmam a necessidade de medidas urgentes, como temos defendido há bastante tempo, para que as empresas possam estabelecer novas relações de trabalho que não adoeçam aqueles que de fato são os responsáveis por sustentar a produção e gerar o conhecimento e a riqueza do nosso país”, defende a presidenta do Sinpro Minas e vice-presidenta da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB nacional).
Na área da educação, a quadro não é diferente, e os transtornos mentais também seguem em rota de crescimento, conforme relatos encaminhados às entidades que representam os docentes. Em 2025, foram registrados, de acordo com o Ministério da Previdência Social, 65.123 afastamentos de professores por problemas de saúde mental.
Linha de frente
“Temos um recorte da sociedade dentro do sistema escolar. Acaba que todos os problemas sociais adentram a escola e recaem sobre os professores, como se eles tivessem que administrar a todo momento as várias crises da sociedade contemporânea. A sala de aula vira um microcosmo da sociedade, e isso também afeta a saúde docente”, afirma Marcelo Ricardo Pereira, professor da faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro “O nome do mal-estar docente”.
O professor compara a docência na atualidade a profissões que estão na linha de frente de situações extremamente desgastantes, como bombeiros combatendo queimadas e enfermeiros na pandemia. “São profissões de ponta, que estão na borda, no limite. Do ponto de vista sociológico, aumentamos o número de alunos em sala de aula e as condições de trabalho foram precarizadas. Isso tudo recai sobre o professor e provoca estresse e esgotamento”.
Para o pesquisador Luciano Mendes, professor visitante do Mestrado Profissional em Educação Básica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a ausência do bem-estar é uma constante na vida dos professores. “Com a precarização dos salários, eles têm de trabalhar muito mais. E quanto mais trabalha, menos tempo sobra para descansar. Nesse sentido, é preciso diminuir o tempo de trabalho. Essa ideia de trabalhar seis dias por semana é um absurdo, principalmente aos sábados, em que, tradicionalmente, as pessoas usam para se cuidar, os cuidados consigo e com os outros, com a casa, a saúde, a diversão, a relação com bens culturais, como cinema, teatro. Tudo isso, para o professor, além de ser espaço de formação, de ampliação do horizonte, do pensamento, de vivências, é também tempo de descanso. Portanto, diminuir o tempo de trabalho dos professores é uma luta fundamental e histórica”, avalia.
Sábado letivo não!
Neste ano, um dos principais pontos da campanha reivindicatória dos professores do setor privado de ensino em Minas Gerais é o fim dos sábados letivos. O Sinpro Minas já publicou uma sugestão de calendário escolar para 2026, com a proposta de 200 dias letivos, conforme prevê a legislação educacional, sem aulas aos sábados.
“Essa tem sido uma reivindicação constante, não somente dos professores, como também de pais e alunos. Todos têm demandado mais dias de descanso, diante da rotina atribulada de estudos e trabalho. Por isso vamos ampliar o debate e a mobilização da categoria em torno dessa discussão, para que tenhamos melhores condições de vida e um ambiente de trabalho que seja favorável à nossa saúde física e mental”, ressaltou Valéria Morato.
Entidade filiada ao





O Sinpro Minas mantém um plantão de diretores/funcionários para prestar esclarecimentos aos professores sobre os seus direitos, orientá-los e receber denúncias de más condições de trabalho e de descumprimento da legislação trabalhista ou de Convenção Coletiva de Trabalho (CCT)
O plantão funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.
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