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CARTA ABERTA AOS PROFESSORES DE ESCOLAS CONFESSIONAIS

21 de setembro de 2026

Queridos professores e professoras de escolas confessionais,

Estamos vivendo um momento que exige de nós coragem, unidade, consciência e fidelidade aos princípios que professamos. Nossa mobilização não pode ser reduzida a uma simples discussão sobre reajuste salarial. Não estamos lutando apenas para que nossos salários sejam corrigidos pelo INPC. Estamos lutando pelo respeito a todos os direitos conquistados e garantidos em nossa Convenção Coletiva de Trabalho.

O reajuste é importante diante da perda do poder de compra provocada pela inflação. Mas nossa luta é maior: trata-se da defesa de direitos, da valorização do trabalho docente, de condições dignas de trabalho e da preservação das garantias construídas coletivamente.

Por isso, nossa greve é legítima. É um instrumento de organização e reivindicação dos trabalhadores quando o diálogo não é suficiente para assegurar aquilo que lhes é devido. Participar de uma mobilização coletiva não significa abandonar nossos valores. Ao contrário: significa defender, de maneira organizada e não violenta, a dignidade do trabalho que realizamos.

Há uma questão ainda mais profunda sobre a qual precisamos refletir. A tradição cristã conhece o perigo de lideranças que procuram governar pelo medo, pela pressão, pela manipulação, pela ameaça ou pela exigência de uma lealdade que se confunde com submissão.

No Antigo Testamento, encontramos repetidamente a denúncia dos governantes que utilizavam seu poder para subjugar aqueles que deveriam proteger. Os profetas não se calaram diante disso. Amós denunciou a exploração dos pobres e a distorção do direito; Isaías criticou governantes que transformavam a justiça em instrumento de opressão; Ezequiel denunciou pastores que cuidavam de si mesmos enquanto negligenciavam o rebanho.

A crítica profética nos lembra de algo fundamental: Deus não confunde autoridade com dominação.

Jesus conhecia muito bem as estruturas de poder de seu tempo. E, quando seus discípulos discutiam sobre quem seria o maior, ele apresentou uma lógica completamente diferente daquela que frequentemente encontramos nas hierarquias humanas de poder: “Quem quiser tornar-se grande entre vós será vosso servo.” Jesus também afirmou que os governantes das nações “dominam” e “exercem autoridade”, mas advertiu seus discípulos de que entre eles não deveria ser assim.

Essa palavra permanece profundamente atual. Porque existe uma diferença enorme entre liderar pessoas e controlar pessoas. Existe diferença entre dialogar e pressionar. Existe diferença entre convencer e manipular. Existe diferença entre construir confiança e exigir obediência pelo medo. Existe diferença entre falar de valores cristãos e efetivamente praticar aquilo que o Evangelho ensina.

Por isso, precisamos ter cuidado quando palavras como “lealdade”, “valores”, “família”, “missão” ou “identidade cristã” são utilizadas para impedir trabalhadores de reivindicarem direitos legítimos. Lealdade não significa abrir mão da dignidade ou aceitar injustiças em silêncio. E, sobretudo, lealdade cristã não significa submissão cega a uma autoridade humana. A própria história do cristianismo demonstra isso. A fé cristã possui uma longa tradição de questionamento da autoridade quando ela se transforma em instrumento de dominação.

O cristianismo não nasceu para ensinar pessoas a terem medo de autoridades. Nasceu anunciando liberdade, justiça, reconciliação e vida. Não estamos contra pessoas. Estamos defendendo direitos.

Por isso, nossa luta não precisa ser marcada pelo ódio. Não precisamos transformar colegas em adversários. Não precisamos desrespeitar ninguém. Não precisamos abandonar aquilo em que acreditamos, mas também não podemos permitir que o medo nos impeça de defender aquilo que é justo. Podemos discordar sem odiar, resistir sem violência, reivindicar sem perder o respeito. E podemos fazer greve sem abandonar nossa fé. E podemos dizer com serenidade: nossos direitos não são favores.

Nossa Convenção Coletiva não é uma concessão graciosa. É resultado de negociação coletiva e representa compromissos que precisam ser respeitados. Por isso, precisamos permanecer unidos.

Se cada professor enfrentar individualmente as pressões, ficaremos mais vulneráveis. Quando nos organizamos coletivamente, mostramos que o trabalho docente possui valor e que aqueles que educam também têm o direito de ser respeitados.

Professores, não tenham medo!

Não tenham medo de serem julgados, de parecerem desleais, de que sua fé seja colocada em dúvida ou de que defender seus direitos seja interpretado como falta de compromisso com a instituição.

Precisamos lembrar: Deus não nos chama para viver dominados pelo medo. A liberdade cristã não é liberdade apenas para obedecer. É também liberdade para discernir, questionar, dizer não àquilo que entendemos ser injusto e defender a dignidade humana.

Paulo escreveu aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.” Essa liberdade não nos autoriza a desrespeitar o outro, mas não permite que entreguemos nossa consciência ao medo.

Vocês não estão traindo a fé por defender seus direitos. Não estão sendo menos cristãos por reivindicar melhores condições de trabalho. Não estão abandonando sua missão como educadores por dizer que o trabalho de quem educa precisa ser valorizado.

Pelo contrário! Há algo profundamente coerente entre ensinar dignidade aos nossos estudantes e lutar para que nossa própria dignidade seja respeitada.

Aos que estão cansados: não desistam. Aos que estão com medo: não permitam que o medo decida por vocês. Aos que se sentem sozinhos: vocês não estão sozinhos. Aos que têm dúvidas: reflitam, conversem, busquem informação e decidam com consciência.

Oramos a Deus para que nossa fé não seja utilizada para nos calar, mas para nos dar coragem; que não seja instrumento de submissão, mas fonte de liberdade.

Nenhum professor precisa escolher entre Deus e a defesa de sua dignidade.

Não há qualquer problema em permanecermos fiéis à nossa fé e, ao mesmo tempo, lutarmos por justiça. A gente pode amar e resistir, perdoar e reivindicar, respeitar e discordar, ter esperança e lutar.

Porque a esperança cristã não é passividade diante da realidade. É a confiança de que a realidade pode ser transformada.

Por isso, professores e professoras de escolas confessionais, permaneçamos unidos, serenos e firmes, na esperança de que aqueles que dedicam sua vida a educar também merecem ser tratados com respeito, justiça e dignidade.

Nossa luta é legítima. Nossa união é necessária. Nossa dignidade não está à venda.

Que Deus nos conceda coragem para permanecer de pé, sabedoria para agir com equilíbrio e esperança para acreditar que dias melhores podem nascer da nossa capacidade de permanecer juntos.

Sigamos firmes, unidos, com esperança e vida.

Um professor de escola confessional, como vocês!

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