
Marilane Teixeira avalia também que a proposta tem o potencial de gerar postos de trabalho, dinamizar a economia local e reduzir casos de doenças ocupacionais
O governo federal definiu para este ano como uma de suas prioridades o fim da escala de trabalho 6×1. Em mensagem ao parlamento, no início deste mês, o presidente Lula destacou a importância da redução da jornada sem diminuição dos salários, reforçando o compromisso de avançar em medidas que impactam a vida dos trabalhadores.
No Congresso, o assunto ganhou impulso com o envio da proposta à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, no dia 9 de fevereiro. Se aprovado na CCJ, o projeto, que prevê redução da jornada normal para até 36 horas semanais e o fim do modelo 6×1, segue para uma comissão especial e depois vai ao plenário.
Nesta semana, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou uma nota técnica, em que aponta que o mercado de trabalho consegue absorver a mudança, e a redução da jornada semanal de trabalho no país tem o potencial de provocar efeitos direitos na distribuição de renda, atenuando desigualdades históricas.
A medida, segundo o estudo, favorece principalmente trabalhadores que atualmente cumprem expedientes mais extensos e recebem salários mais baixos. De acordo com pesquisadores do Ipea, eventuais efeitos sobre o Produto Interno Bruto (PIB) devem ser avaliados em conjunto com os possíveis ganhos sociais, como a melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores, maior disponibilidade de tempo para atividades de cuidado e impactos positivos na saúde da população.
Luta histórica
Em entrevista ao Sinpro Minas, a economista Marilane Teixeira (foto), professora da Universidade de Campinas, afirma que a redução da jornada semanal sem corte de salários, além de poder gerar empregos e diminuir o adoecimento relacionado ao trabalho, deve ser entendida como parte da luta histórica da classe trabalhadora por direitos. Segundo ela, estudos também indicam que jornadas menores elevam a produtividade por hora trabalhada e dinamizam a economia local, ao ampliar o tempo disponível para consumo, lazer e serviços.
“No mundo do trabalho, essa mudança enfrenta a precarização estrutural e melhora as condições de saúde física e mental, com impactos particularmente relevantes para mulheres e pessoas negras, que concentram as jornadas mais longas e mal remuneradas. Ao ampliar o tempo social disponível, o fim da escala 6×1 fortalece o compartilhamento das responsabilidades familiares e de cuidados, amplia a autonomia sobre o uso do tempo livre e contribui para uma sociedade mais saudável e com melhor qualidade de vida”, defende a economista, que também é pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da universidade.
Confira abaixo a entrevista.
Quais impactos positivos o fim da escala 6×1 pode gerar na economia e no mundo do trabalho?
Marilane Teixeira – O fim da escala 6×1 deve necessariamente ser acompanhado da redução da jornada de trabalho; caso contrário, seus efeitos econômicos e sociais tendem a ser limitados, pois a simples redistribuição dos dias pode resultar na intensificação da jornada diária. A combinação entre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada pode contribuir de forma significativa para a geração de empregos, ao exigir novas contratações, especialmente nos setores de comércio e serviços, ao mesmo tempo em que reduz a rotatividade e o adoecimento relacionado ao trabalho. Os dados indicam que o adoecimento laboral assumiu proporções epidêmicas, com mais de 500 mil afastamentos por doenças ocupacionais em 2025. Evidências empíricas mostram que jornadas menos extensas elevam a produtividade por hora trabalhada e estimulam a economia local, ao ampliar o tempo disponível para consumo, lazer e serviços, gerando novos postos de trabalho e reduzindo o desemprego e a subocupação.
Além disso, trabalhadores e trabalhadoras tendem a atuar com maior disposição e criatividade quando dispõem de mais tempo para descanso e vida social. No mundo do trabalho, essa mudança enfrenta a precarização estrutural e melhora as condições de saúde física e mental, com impactos particularmente relevantes para mulheres e pessoas negras, que concentram as jornadas mais longas e mal remuneradas. Ao ampliar o tempo social disponível, o fim da escala 6×1 fortalece o compartilhamento das responsabilidades familiares e de cuidados, amplia a autonomia sobre o uso do tempo livre e contribui para uma sociedade mais saudável e com melhor qualidade de vida.
A redução da jornada de trabalho é uma tendência mundial?
A redução da jornada de trabalho é, de fato, uma tendência mundial, impulsionada por profundas transformações econômicas, tecnológicas e sociais. Diversos países vêm debatendo e implementando jornadas mais curtas, como resposta ao aumento da produtividade, às inovações tecnológicas e à necessidade de enfrentar o desemprego, a subocupação e o crescente adoecimento relacionado ao trabalho. A esse processo soma-se uma mudança geracional significativa: os jovens expressam novas perspectivas em relação ao trabalho, atribuindo maior valor ao tempo livre, à saúde mental, ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional e à possibilidade de múltiplos projetos de vida, o que tensiona modelos baseados em jornadas longas, rígidas e pouco compatíveis com essas expectativas. Nesse contexto, amplia-se o reconhecimento de que jornadas extensas não se traduzem, necessariamente, em maior eficiência econômica, mas em elevados custos sociais.
A redução da jornada também se articula à promoção da igualdade de gênero, à reorganização do trabalho de cuidados e à construção de modelos de desenvolvimento mais sustentáveis, orientados pela qualidade de vida. Em diversos segmentos econômicos, especialmente nos setores de alta tecnologia, jornadas mais curtas e o trabalho remoto já são uma realidade, e muitos empregadores têm constatado que a redução do tempo de trabalho pode gerar resultados econômicos superiores ao esperado. Evidentemente, essa transição precisa considerar a heterogeneidade das atividades econômicas e ocupações, razão pela qual avança de forma desigual entre países, setores e contextos políticos, sendo mais difundida em economias que já consolidaram uma cultura de redução da jornada e de descanso aos sábados e domingos.
Quais medidas precisam acompanhar o fim da escala 6×1 para que tenhamos desenvolvimento econômico com valorização do trabalho?
Para que o fim da escala 6×1 resulte efetivamente em desenvolvimento econômico com valorização do trabalho, é fundamental que ele seja acompanhado por um conjunto articulado de medidas estruturais. Em primeiro lugar, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial é central, evitando a intensificação do ritmo diário e garantindo ganhos reais de bem-estar. Essa mudança deve vir acompanhada de políticas de estímulo à geração de empregos, especialmente nos setores de comércio, serviços e cuidados, onde a escala 6×1 é mais difundida.
Também é essencial o fortalecimento da negociação coletiva e da fiscalização do trabalho, para coibir práticas de intensificação, fraudes e descumprimento da legislação. Medidas de valorização do salário mínimo e dos pisos salariais contribuem para sustentar a demanda e reduzir a rotatividade. Além disso, políticas de saúde e segurança no trabalho, com foco na prevenção do adoecimento físico e mental, devem ser reforçadas.
Por fim, o fim da escala 6×1 precisa estar articulado a políticas públicas de cuidado, mobilidade e qualificação profissional, que ampliem a autonomia das mulheres sobre o uso do tempo, reduzam desigualdades de gênero e raça e sustentem um modelo de desenvolvimento orientado à qualidade de vida e à valorização social do trabalho.
Por: Denilson Gonçalves
Foto: Pedro França/Agência Senado
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