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Mulheres são maioria em afastamentos por transtornos mentais no Brasil

31 de março de 2026

O Brasil atingiu, pelo segundo ano consecutivo, um recorde no número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social. Em 2025, foram mais de 546 mil casos registrados, superando os cerca de 470 mil de 2024. Ansiedade e depressão seguem como os principais diagnósticos e, por trás dos números, um recorte revela uma desigualdade persistente: a maioria dos afastamentos é de mulheres — mais de 60% do total.

Na área da educação, o cenário não é diferente, e o sofrimento psíquico das professoras não é um fenômeno isolado, mas resultado de uma combinação de fatores econômicos, sociais, institucionais e subjetivos, de acordo com a professora e pesquisadora Margareth Diniz, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Há mais de três décadas, ela investiga o “mal-estar docente”, com foco nas mulheres. Seus estudos mostram que, embora o problema seja antigo, ele vem se agravando, especialmente nos últimos anos.

A pesquisadora lembra que a docência, por si só, já é uma área marcada pela alta exigência emocional, por lidar diretamente com pessoas e suas histórias, conflitos e vulnerabilidades. A escola, por sua vez, torna-se um espaço onde convergem problemas sociais diversos, como dificuldades familiares, desigualdades econômicas, violências, exclusões e questões de saúde mental dos próprios alunos.  “É uma profissão em que todos os problemas aparecem”, resume a pesquisadora.

Escala 7×0

Nesse contexto, as professoras enfrentam condições específicas que ampliam o desgaste físico e emocional. Um dos principais fatores é a sobrecarga de trabalho fora da escola. Além da jornada profissional, muitas mulheres acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado, seja com filhos, familiares ou com a organização da casa.

Um estudo recente do Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade (Made), da Universidade de São Paulo, aponta que, na média, as brasileiras cumprem 21,3 horas semanais em trabalhos domésticos, ante apenas 8,8 horas dos homens. Intitulado “Escala 7×0”, em referência à jornada invisível feminina sem nenhum dia de descanso, o estudo foi feito a partir dos dados da Pnad Contínua, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE.

Essa carga adicional, avalia Margareth Diniz, tem efeitos diretos sobre a saúde das docentes: menos tempo de descanso e de lazer, alimentação inadequada e aumento do estresse crônico. “Existe uma naturalização dessa sobrecarga, como se fosse esperado que a mulher desse conta de tudo”, explica.

Pressão por desempenho

Outro elemento importante, segundo a pesquisadora, é a pressão social sobre o desempenho feminino. Segundo ela, as mulheres são constantemente avaliadas e, muitas vezes, submetidas a padrões inatingíveis, algo que se intensifica com as redes sociais, onde há uma exposição constante de modelos idealizados de sucesso, produtividade e estética, o que contribui para sentimentos de inadequação e quadros de ansiedade.

No ambiente profissional, essa pressão se combina com desigualdades estruturais. Mulheres ainda enfrentam mais barreiras para ocupar cargos de liderança, recebem salários menores e, frequentemente, têm seu trabalho menos reconhecido.

No setor privado de ensino de Minas Gerais, por exemplo, as professoras recebiam, em 2022, em média, R$ 2.752,77, e os professores, R$ 3.477,71, para uma jornada de 25 horas semanais. Isso representa uma média salarial 26,3% menor do que a dos homens. Os números fazem parte de uma pesquisa encomendada ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) pelo Sindicato dos Professores de Minas Gerais (Sinpro Minas), com a finalidade de traçar um perfil da categoria.

“Pedimos esse estudo para compreender com mais profundidade as realidades que enfrentamos diariamente e fortalecer nossa atuação nas mesas de negociação. A desigualdade salarial, já apontada em nossos levantamentos internos, mostrou-se evidente e inaceitável. Levamos o tema aos donos de escolas, mas, mais uma vez, nos deparamos com a recusa em enfrentar o problema. Mas seguiremos firme e lutando para superar essa e todas as formas de desigualdade de gênero”, afirma a presidenta do Sinpro Minas, Valéria Morato.

Precarização e perda de autonomia

Além desses fatores, a falta de condições adequadas de trabalho exerce um papel decisivo no adoecimento docente. Ao longo dos anos, ressalta a pesquisadora, houve uma deterioração da profissão, que sofre com baixos salários, contratos precários, falta de estabilidade, infraestrutura inadequada, excesso de cobranças e aumento no volume de tarefas. Também é comum o fato das professoras lidarem com longos deslocamentos, vínculos em várias escolas e jornadas fragmentadas, realidade que pressiona e desgasta o exercício da profissão.

Além disso, de acordo com a pesquisadora, a docência carrega, historicamente, uma associação com a ideia de vocação e missão, o que contribui para a precarização. “Em decorrência dessa visão, muitas vezes se naturalizam condições inadequadas, baixos salários e excesso de demandas”.

Mudanças estruturais

Para a pesquisadora, o enfrentamento do adoecimento mental na educação passa por mudanças estruturais, com medidas como valorização da carreira docente, salários dignos, melhores condições de trabalho, fortalecimento da autonomia pedagógica, além da oferta de suporte psicológico e institucional. Para além disso, aponta Margareth Diniz, todos precisam enfrentar as desigualdades de gênero na sociedade.

“Os governos assumirem a educação como prioridade é a primeira questão. Salários dignos com condições de trabalho adequadas são fundamentais para que as pessoas voltem a ter desejo pela profissão docente. Então a gente precisa representar a mulher e a docência de uma outra forma, para viver a profissão sem adoecer”, ressalta.

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