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A inteligência artificial hoje é degenerativa, afirma o sociólogo Ricardo Antunes

12 de novembro de 2025

Por Denilson Cajazeiro | Sinpro Minas 

Professor da Unicamp defende uma regulamentação profunda das big techs e de suas tecnologias, que precarizam e destroem a força de trabalho. Para o pesquisador, a luta social é a única capaz de impedir essa lógica destrutiva   

O mundo do trabalho enfrenta um dos momentos mais críticos de sua história. A avaliação, feita pelo sociólogo Ricardo Antunes (foto), professor da Universidade de Campinas (Unicamp), leva em consideração a confluência na atualidade de fatores muito desfavoráveis para os trabalhadores, entre eles o aumento do desemprego, a financeirização da economia, a crise do sistema capitalista e a precarização dos direitos, agravada recentemente pelas big techs e suas plataformas digitais. A esse cenário, soma-se a chegada da inteligência artificial, que promete, entre outras coisas, acabar com postos de trabalho.

Foto: Artur Renzo | Editora Boitempo

 

“O mundo da inteligência artificial hoje tem um objetivo precípuo: eliminar trabalho vivo e ampliar o trabalho morto. Eliminar trabalhadores e trabalhadoras em todas as esferas do trabalho, inclusive da educação, e ampliar o trabalho morto. O que é o trabalho morto? Maquinaria”, afirmou Ricardo Antunes, em entrevista ao Sinpro Minas, minutos antes de participar de uma mesa no seminário de 30 anos do Núcleo de Estudos sobre Trabalho e Educação, da Faculdade de Educação da UFMG, no dia 8 de outubro.

O professor da Unicamp, considerado um dos principais nomes da Sociologia do Trabalho no Brasil e autor de diversos livros que abordam o tema, falou das perspectivas sobre o futuro do trabalho no país e no mundo, durante sua palestra no seminário. O evento foi realizado no Centro Cultural da Universidade, localizado na região central de Belo Horizonte. O local, um espaço público aberto à população, abriga atividades multiculturais, como mostras individuais e coletivas, espetáculos teatrais e criações como a da artista Victória Sofia, cuja obra “Habitar o que resta” estava em exposição (foto) – numa espécie de metáfora do mundo e as atuais ameaças ambientais, bélicas e destrutivas do mundo do trabalho.

 

“O capitalismo parece muito sólido, mas pode desmanchar. Como desmanchou o feudalismo, como desmanchou o império greco-romano, como desmanchou os modos de produção das sociedades primitivas. A história tem algo genial: ela é contraditória e imprevisível. Essa é a questão crucial. Então, aqueles que conhecem a história, que vivem a realidade e que entendem o que está se passando sabem que só é possível transformar essa realidade com consciência, reflexão e percepção de que nós não temos futuro [no capitalismo]. Quem tem hoje 30 anos não quer ter filhos nem filhas. Não sabe se esses filhos terão como viver. E não é possível assim! Então, isso nos coloca em uma situação: vamos esperar para ver o que vai acontecer ou vamos à luta, à batalha?”, alerta o professor, para quem a educação exerce um papel crucial nesse debate.

Confira abaixo a entrevista.

Podemos iniciar falando um pouco do tema da sua palestra. Quais são as perspectivas sobre o futuro do trabalho, professor?
Eu começaria dizendo que o momento que a humanidade vive hoje é o mais destrutivo de toda a história do capitalismo. Por quê? Porque houve uma confluência de três ou quatro grandes movimentos que levaram à situação atual. A primeira é que nós adentramos, desde os anos 70 do século passado, em uma crise estrutural muito profunda, em que o padrão produtivo da indústria automobilística do século 20 não é mais o modelo dominante.

Houve um processo de financeirização, que significa a fusão do capital bancário com o capital industrial. E no processo de uma crise muito profunda, que começa em 1973, se agudiza em 2008, 2009, quando parecia abrandar, aí vem a pandemia e agora no contexto de um mundo onde a iminência até mesmo de uma guerra mundial se coloca.

O que acontece em relação à classe trabalhadora? Nesse período, paralelamente a essa crise, nós tivemos a explosão do desemprego. Não há um país do mundo hoje com um certo porte econômico e industrial, indústria no sentido amplo, de transformação automobilística, de serviços, que não tenha desemprego. Paralelamente a isso, desde os anos 70, 80, houve uma monumental expansão tecnológica e industrial que nos levou ao mundo dos algoritmos e da inteligência artificial.

O mundo da inteligência artificial hoje não tem nenhum outro objetivo, no seu tom dominante, que é uma indústria artificial tida como generativa, depois eu vou criticar essa ideia, comandada, plasmada pelas grandes corporações capitalistas globais, ele tem um objetivo precípuo: eliminar trabalho vivo e ampliar o trabalho morto. Eliminar trabalhadores e trabalhadoras em todas as esferas do trabalho, inclusive da educação, e ampliar o trabalho morto. O que é o trabalho morto? Maquinaria.

Nos séculos 18 e 19, era a máquina ferramenta industrial. No século 21, essa máquina é a informacional, digital, algorítmica e baseada na inteligência artificial. Essa mudança é muito profunda, porque quem comanda esse mundo é o capital financeiro, que não tem outro objetivo senão acumular, valorizar-se, gerar mais riqueza privada para grandes grupos que hoje estão nas big techs.

Ao mesmo tempo que tivemos a crise dos anos 70, início do desemprego, expansão tecnológica, houve uma monumental privatização dos serviços e, hoje, financeirização dos serviços. A escola, o comércio, as estradas, a saúde, a educação em geral, o fornecimento de água, energia elétrica, tudo isso se tornou privatizado.

E, ao mesmo tempo, nasceram as plataformas digitais, Uber, Uber Eats, Amazon, Amazon Mechanical Turkey, Mercado Livre, Workana, Airbnb, Parafuzo, Glovo, Deliveroo, iFood, estou olhando no cenário brasileiro, latino-americano e global. Fundamentalmente essas plataformas se desenvolveram com base na explosão tecnológica. Trouxeram o algoritmo para a indústria capitalista dos serviços.

A partir desse incremento tecnológico nos serviços, elas passaram a dar o pulo, o golpe Frankenstein. Há uma massa desesperada de trabalhadores e trabalhadoras no mundo buscando trabalho, e uma alta tecnologia que desemprega e potencializa trabalho. E tem uma legislação neoliberal sob o comando financeiro que não faz outra coisa senão destruir direitos do trabalho.

Quem consegue emprego e trabalha em plataforma hoje não é considerado empregado, nem trabalhador, nem assalariado nem dotado de direito. É, aspas, a mistificação mentirosa do empreendedorismo ou da autonomia, de modo que trabalhem por jornadas ilimitadas, 8, 10, 12, 14, 16, 18 horas por dia, muitas vezes de domingo a domingo, sem descanso, sem nenhum direito do trabalho. Então veja o absurdo a que nós chegamos.

Foto: Paulo Pinto | Agência Brasil

 

No mundo do trabalho hoje, o único emprego que cresce é o trabalho em plataformas, em todas as profissões e serviços, médicos, médicas, enfermeiros, enfermeiras, professores, professoras, jornalistas, advogados, advogadas, trabalhadoras domésticas, em todas essas profissões o trabalho que se expande é o trabalho em plataforma. E o que singulariza cada um desse tipo de trabalho? Nenhum deles trabalha regulamentado, ou seja, nenhum deles está protegido pela legislação do trabalho.

Portanto, o futuro do trabalho está diretamente atado a, em primeiro lugar, reinventar um outro modo de vida. A inteligência artificial, não sou contra, mas ela não pode ser uma inteligência artificial para gerar mais riqueza privada de grupos do Elon Musk e Jeff Bezos, esses que hoje operam na casa dos trilhões.

Por isso que eu disse, recentemente, em um artigo para o Jornal da Unicamp, que nós estamos vendo o nascimento de uma inteligência artificial degenerativa que, na medida em que objetiva o enriquecimento dos grandes grupos, ela precariza e destrói a força de trabalho. Então, uma parcela da força de trabalho vai perder emprego e a outra vai ser precarizada. E o professor e a professora não estão imunes. O quanto, hoje, já há mais estudantes em EAD, no ensino superior, do que ensino in loco. É um absurdo! É, digamos assim, uma destruição daquilo que singulariza a educação. A educação é um processo de aprendizagem coletiva. Supõe a interação pessoal entre alunos, alunas, professores, professoras, funcionários. É um processo pedagógico.

A educação do capital do nosso tempo, desses grandes grupos econômicos, é uma educação instrumentalizada, que objetiva, fundamentalmente, o enriquecimento desses grandes grupos de economia privada. O único objetivo que eles não têm é uma educação humanista, científica, autônoma, criativa e para a humanidade. É uma deseducação para o enriquecimento privado. Essa é a tragédia do nosso mundo. O que fazer? Lutar! Professores lutarem, sindicatos lutarem, exigirem direitos, reinventarem o modo de vida, não aceitarem a inteligência artificial para eliminar professores e professores nem funcionários. A inteligência artificial é o apoio.

Daqui a pouco chegaremos ao absurdo de termos uma inteligência artificial dizendo como vai ser o mundo. Você está percebendo o limite? Não é possível. Isso é Frankenstein, isso é a destruição da humanidade. Que alternativa nós temos para impedir isso? Reinventar um outro modo de vida, que não pode ser o modo de vida capitalista, porque ele destruiu a natureza, o trabalho e vem destruindo o gênero, a raça, a etnia. Nós temos que reinventar. Esse é o desafio que as escolas privadas não ensinam, porque o papel delas não é esse.


Significa que esse quadro se agrava com a inteligência artificial?
Claro, porque a inteligência artificial é um salto. Embora não seja nova, a inteligência artificial, se a gente for datar, remete a algumas décadas atrás. Mas hoje, veja bem, por isso que no começo eu disse, hoje quem comanda o mundo não é mais o capital industrial, é o capital financeiro.

O capital financeiro só tem um modus vivendi, um modus operandi: dinheiro tem que gerar mais dinheiro. Como eu faço? Eu posso eliminar a classe trabalhadora? Não, eu não posso. Porque o capitalismo morre sem classe trabalhadora. A tragédia do sistema capitalista é que quem cria a riqueza, que é apropriada privadamente, é o trabalho humano. É a exploração do trabalho humano que gera a riqueza. Tecnologia não cria riqueza humana. A tecnologia potencializa o trabalho humano.

Claro que a inteligência artificial está num salto muito perto de substituir uma massa imensa de fazeres. Mas, em última instância, ela vai requerer trabalho humano para controlá-la, para corrigi-la e para impedir a tragédia. É nesse contexto, então, que o quadro se acentua, porque o mundo maquínico, informacional, digital, dos algoritmos e da inteligência artificial tem sido moldado para o enriquecimento das grandes corporações.

O desafio, então, é reinventar um novo modo de vida onde haja uma regulação muito profunda da inteligência artificial. Eu digo que a inteligência artificial que nós estamos vendo hoje é degenerativa. Ela é destrutiva. É que nem as big techs. Elas não pagam impostos. Elas comandam o mundo. Elas elegeram Trump nos Estados Unidos. Elas têm um projeto de domínio, junto com o neofascismo extremado e o neoliberalismo extremado, de dominação do mundo. Nós vamos esperar isso?

É um papel pedagógico crucial da escola a reflexão e a luta contra isso. Papel dos estudantes, das estudantes, dos professores, das professoras e dos alunos. Seja nas escolas públicas, onde isso é um imperativo crucial, seja também nas escolas e faculdades privadas. Que lutem para que a educação não seja, digamos assim, uma mera razão instrumental do capital.


Se o senhor tivesse que definir em poucas palavras as características gerais do mercado de trabalho brasileiro, quais seriam?
Informalidade, precarização, uberização, intermitência, destruição de direitos e você trabalha, você recebe, você não trabalha, você não recebe – isso é o trabalho intermitente e uberizado. Você adoece, se vire. Você morre, você não tem o dinheiro para o caixão. Não é possível aceitar isso! É repulsivo e só a classe trabalhadora é quem tem a possibilidade coletiva, com suas lutas, de professores, de professoras, de funcionários, de estudantes. O movimento feminista, o movimento antirracista, o movimento da juventude. São esses movimentos que podem resgatar o sentido da humanidade. E não pense, o grande capital, que isso é uma impossibilidade.

Os senhores feudais do século 18 não imaginavam que uma revolução francesa pudesse chegar aonde chegou e que levasse ao fim do feudalismo. A sociedade czarista russa não podia imaginar que uma revolução russa pudesse derrotá-la. O que veio depois é uma outra história. O nazismo na Alemanha e o fascismo na Alemanha se achavam e se consideravam inquebrantáveis. A luta social é a única possibilidade de destruir essa lógica destrutiva e reinventar o modo de vida, e a educação tem um papel importante nisso.


Os números crescentes de problemas de saúde mental na população brasileira mantêm conexão com esse quadro de precarização das condições de trabalho?
Tem tudo a ver. Vou dar um exemplo rápido, mas direto. No passado, era o cronômetro do Taylor que controlava a tua produção. Você estava trabalhando lá na fábrica e tinha um cronômetro que, quando dava oito ou dez horas, apitava e acabava a jornada. Isso moldou a indústria automobilística em todo o século 20. Hoje é a meta. E o que é a meta? A meta é uma introjeção na consciência e na subjetividade da classe trabalhadora, professor, professora, advogado, advogada, metalúrgico, trabalhador em plataforma, de que ele tem que produzir sempre mais. Ele tem que fazer. Ele tem que estar introjetado de que tem que produzir.

Então você tem toda a adulteração do léxico, que é vergonhosa. Sinergia, tudo entre aspas. Resiliência entre aspas. São empulhações. O que é a sinergia, a resiliência? É o caminho certo para o burnout. E o que é o burnout? Parou. O trabalhador, o professor ou a professora, num dado dia parou. Apagão. É a doença psíquica. São os estressamentos, as depressões. São os suicídios. Porque hoje a doença que explode no Brasil é a doença psíquica, da saúde mental, que decorre de um trabalho desprovido de sentido. Esta é a questão crucial nossa. Reinventar uma vida onde o trabalho e a vida sejam dotados de sentido.

Foto: Tomaz Silva | Agência Brasil


Esse cenário atual é algo novo na história do trabalho?
É e não é. Muitas crises já ocorreram na história do trabalho. A classe trabalhadora inglesa que se formou no século 18 se originou dos feudos que desapareceram, dos trabalhadores camponeses que foram para a fábrica. E trabalhavam 12, 14, 16, 18 horas por dia, morriam. Até que a primeira luta operária se chamou ludismo. Eu não sei se você se lembra, mas ludismo significava quebrar as máquinas, porque o nome do principal líder operário dessa época chamava-se Ned Ludd. Então o trabalhador ou a trabalhadora viram uma fábrica chegar e desempregar 100, 200. Na terceira, quarta vez, vamos quebrar a máquina, o que é compreensível, é uma luta. O inimigo não é a máquina. O inimigo é qual sistema está programando e comandando a máquina. Então, não é a primeira vez.

Agora, na intensidade, é a mais profunda. Não houve nenhum momento da história humanidade em que, ao mesmo tempo, você teve destruição ilimitada do trabalho, destruição ilimitada e sem perspectiva de retorno, se não agirmos já, na natureza, aquecimento global, energia fóssil, extração mineral.

Agora, o que o Trump quer aqui? O lítio, óbvio, é devastar, como aqui em Belo Horizonte, onde metade do morro virado para cá está verdinho. A outra metade é um morro careca e acéfalo, destruído. Então, o mundo que nós estamos vivendo, pela primeira vez, não está fora do universo do capitalismo a ideia de destruição da humanidade. Por isso ela é mais profunda, e o papel da educação é crucial na luta.


Qual seria esse papel?
O papel de resgatar o sentido reflexivo, coletivo, pedagógico, o sentido do estudo que ajuda a entender as tragédias desse mundo e como nós conseguirmos fazer com que esse mundo não nos leve à destruição final. E nesse sentido eu sou otimista, porque senão não estaria nesse debate aqui agora. Porque o trabalho humano pode e deve utilizar da técnica e da tecnologia como seu apoio. O que ele não pode é ser substituído pela tecnologia. Esse é o dilema crucial do nosso tempo.


Apesar dessa conjuntura desfavorável, precisamos manter o otimismo, é isso?
Eu diria que eu me inspiro numa frase, que eu não vou te dizer quem é o autor, mas você vai encontrar fácil. Esse autor disse um dia assim, e estou fazendo uma pequena flexão na frase: ‘tudo que parece sólido pode desmanchar’. O capitalismo parece muito sólido, mas pode desmanchar. Como desmanchou o feudalismo, como desmanchou o império greco-romano, como desmancharam os modos de produção das sociedades primitivas.

A história tem algo genial: ela é contraditória e imprevisível. Essa é a questão crucial. Então, aqueles que conhecem a história, que vivem a realidade e que entendem o que está se passando sabem que só é possível transformar essa realidade com consciência, reflexão e percepção de que nós não temos futuro. Quem tem hoje 30 anos não quer ter filhos nem filhas. Não sabe se esses filhos terão como viver. E não é possível assim. Então, isso nos coloca em uma situação: vamos esperar para ver o que vai acontecer ou vamos à luta, à batalha?


Foto principal: Bruno Peres | Agência Brasil

COMENTÁRIO

Uma resposta

  1. Essa análise do professor é tão densa que só resta um sorriso diante da tragédia: a IA vai substituir professores, mas quem vai programar a IA? Precisamos de um curso de Técnicas de Autocuidado Contra o Burnout na EAD, já! Que a luta seja coletiva, mas que tenha um horário regulamentado, a menos que queiramos transformar a resistência em… burnout coletivo. Acho que a próxima grande revolução vai ser contra o entre aspas na própria luta!

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