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Amamentar NÃO é crime! Desrespeitar esse direito é VIOLÊNCIA!

29 de novembro de 2019

Repudiamos publicamente a atitude da Faculdade Pitágoras que, nesta semana, orientou a expulsão de uma estudante da sala de aula por estar amamentando sua filha de 10 meses. Poderia ter sido mais um dia comum para essa estudante. Mas este dia, certamente, já ficou marcado com um dos episódios mais fortes de violência em sua trajetória como mulher e mãe.

Nos posicionamos frente à ação da Faculdade Pitágoras, porque entendemos que fatos como esse reverberam uma série de violações já naturalizadas em nossa sociedade. A expulsão da estudante não pode ficar limitada a um assunto interno da instituição, deve ser denunciada e hoje convidamos a todos e todas a refletir sobre as consequências deste ato.

Violação aos direitos conquistados

Foram muitos anos de luta para que as mães conquistassem o direito à livre amamentação em espaços públicos e privados. Lamentavelmente uma instituição de educação parece desconhecer essa conquista. Segundo a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, “É assegurado à lactante o direito de amamentar a criança em todo e qualquer ambiente, público ou privado, ainda que estejam disponíveis locais exclusivos para a prática”. Quem proibir ou constranger as que decidirem alimentar seus filhos terá que pagar multa.

Além da lei federal, a Faculdade Pitágoras também parece desconhecer a Lei Municipal 10.940/2016, de autoria do vereador Gilson Reis (PCdoB), que estabelece que “independentemente da existência de áreas específicas ou exclusivas para o aleitamento, a amamentação é ato livre e discricionário entre a mãe e o filho, a qual decidirá o momento e local onde deseja praticá-lo livremente ou sem qualquer restrição e intervenção de terceiros.”

O episódio vivido pela estudante só reforça o quanto essas leis devem ser respeitadas e difundidas. A invisibilidade de direitos e o desconhecimento de conquistas tão importantes só serve à manutenção de tantos preconceitos.

Aporte à desigualdade de gênero

Por trás de tantos números que revelam as desigualdades de gênero, nascem episódios como esse. Ser estudante, mulher, mãe se torna um fardo pesado em uma sociedade que estigmatiza o lugar da maternidade. Quantas mulheres e em quantos momentos preferiram se ausentar de certos espaços a não ter que lidar com esse tipo de violência? Repudiamos esta ação porque naturalizar cada postura machista é contribuir para um modelo desigual, em que as mulheres são impedidas de ocupar os lugares que querem estar. A maioria da categoria docente é composta por mulheres, que são mães e que em algum momento também estiveram do outro lado se formando. A realidade dessa estudante é a realidade que já foi vivida por muitas professoras quando estudavam e ainda hoje quando precisam amamentar seus/suas filhos/as no ambiente de trabalho.

De acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, divulgada no ano passado, após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que segue inclusive 47 meses após a licença. A maior parte das saídas do mercado de trabalho se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador. A pesquisa revela também que trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% 12 meses após o início da licença, enquanto a queda é de 51% para as mulheres com nível educacional mais baixo.

Esses dados revelam a injusta realidade das mulheres que assumem o papel da maternidade e também evidenciam a importância da formação educacional na luta contra esses números. De acordo com a própria estudante, ela não leva a filha à Faculdade por achar “legal”, mas sim por necessidade. Uma prova de que mesmo atravessando obstáculos para seguir seu caminho profissional, outros tantos obstáculos são criados a cada dia.

Lutar contra o modelo patriarcal é criar condições para que todas as mulheres, em suas mais diversas realidades e condições, não sejam excluídas ou mantidas em um estigma histórico do que é ser mulher. Igualdade de gênero deve ser uma luta de todos/as.

Violação à Educação

É lamentável que uma instituição que tenha concessão pública para explorar a educação tenha atitudes como essa. Que visão de Educação é essa que exclui e não pode construir a partir da diversidade? A contradição ainda é mais profunda quando pensamos que a estudante foi expulsa da sala de aula do curso de Nutrição. Questionamos se a direção da Faculdade se apropria o suficiente da importância do aleitamento materno para o desenvolvimento humano ou se para a instituição esse curso é mais um produto a ser oferecido.

Entendemos que a Educação é espaço para liberdade e diversidade. Cada estudante deve ser tratado/a com um ser humano e não como um número, regido sob regras. Por defender uma educação de qualidade é que defendemos não só o direito dos/as professores/as, mas de todos/as aqueles/as que sobrevivem e lutam para a construção de uma sociedade mais igualitária.

Já vivemos um momento de muitos retrocessos e ataques aos nossos direitos, liberdades e pensamentos. Não podemos deixar que dentro das instituições de ensino se aprofunde ainda mais esta onda conservadora que, por trás de discurso moralista, violenta e persegue os/as mais marginalizados/as.

Reafirmamos nossa solidariedade com a estudante e nos colocamos à disposição para tomar as devidas providências, mesmo sabendo que nada do que for feito apaga o peso e a tristeza de ter vivido uma violação como esta.

Reafirmamos também que seguiremos denunciando e lutando contra todas as formas de opressão e injustiças dentro e fora das instituições de ensino. Que esta estudante-mãe-mulher e tantas outras milhões sigam ocupando a sala de aula e todos os territórios possíveis. Sem diversidade e resistência, não há Educação libertadora!

Ato em repúdio ao crime cometido pela Faculdade Pitágoras 

Na próxima terça-feira, iremos realizar um ato para seguir denunciando a postura da instituição. Participe!

Dia: terça, 03/12 | Hora: 18h | Local: em frente à Faculdade Pitágoras, rua dos Timbiras, 1375 – Funcionários

Assinam esta nota:

Sindicato dos Professores de Minas Gerais – Sinpro Minas

União Estadual dos Estudantes – UEE

DCE Pitágoras

Conselho Municipal da Mulher

Mandato do vereador Gilson Reis (PCdoB)

 APUBH – Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Ouro Branco

Foto: imagem ilustrativa 

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