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Artigo: A cultura pode e deve ser forma de luta e resistência

15 de fevereiro de 2018

O carnaval de 2018 reinaugura um tempo em que os enredos tinham signo de protesto, onde denunciávamos ao mundo as mazelas consequentes da ganância das classes dominantes, a opressão, a miséria e a fome por dias melhores. Esses dias melhores chegaram, e com esses dias o adormecimento das lutas de ideias, um período onde historicamente o povo se sentia parte da sociedade. Esse pertencimento, e essa cidadania sofreu o golpe junto com a Presidenta Dilma, e como nada é tem ruim que não traga algo de bom, o golpe nos trouxe a retomada da consciência social, do pertencimento de uma classe excluída, estruturada no escravagismo há 130 anos.

É neste contexto que o carnaval deu seu recado, com destaque no primeiro dia para a Paraíso do Tuiuti, Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão? O tema faz um enfrentamento com o estado, e questiona se acabou mesmo a escravidão em nosso país, denunciando todas as formas de escravidão, do trabalho forçado, a força da flexibilização total dos direitos trabalhistas.

A Estação Primeira de Mangueira, duelou: Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro, Eu Brinco. E vai para cima do prefeito neopentecostal, que vem destruindo todas as formas de cultura popular, constituindo uma atmosfera de intolerância, seguida de formas de violência e racismo religioso, o prefeito vem destroçando a saúde e a educação, e todas as formas de políticas públicas do município, desconhece o estado laico, em detrimento do empoderamento de Igreja Universal para o cenário eleitoral que acontece neste segundo semestre.

No segundo dia, os enredos sustentaram e fizeram do carnaval o bom combate, em que se trava em um campo histórico, social e econômico. Veio com o Salgueiro fazendo uma linda homenagem a força das Mulheres Negras – Senhoras do Ventre do Mundo. O enredo lembra ao mundo, o que o eurocentrismo através de cultura de domínio, e suas religiões negaram por quase toda sua existência, que a África é o berço da humanidade, o registro de fóssil humano mais antigo do mundo é de uma mulher, na África. A outra questão é que o Jardim do Éden também é território africano,  e uma das civilizações mais complexas e antigas do mundo, o Egito, se localiza na região do Magrebe, norte da África. Registrando que a África é mais que o berço da humanidade, mas também da civilização.

O enredo tratou de nós, enquanto mulher, mãe, guerreira, trabalhadora e dona de saberes. O valor de mulheres que carregou e carrega o mundo nas costas. Ainda assim vale uma ressalva ao desfile: Nos chama atenção de forma crítica, a Comissão de Frente, da forma que atravessa ao objetivo do enredo, uma homenagem a força das Mulheres Negras, mas que em sua comissão de frente utilizou homens, quando ali se representava a força da vida e da gestação.  A outra questão mais polêmica foi o uso do blackface, e o racismo nele representado, é uma contradição que precisamos destacar.

Já a Beija-Flor tratou das consequências das políticas inacabadas e excludentes na história de nosso país: Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar, as desigualdades de classes, estruturadas nas formas de Discriminação, Racismo, Sexismo, Homofobia e todas as formas de intolerância, e/ou Racismo Religioso, uma luta aberta contra o conservadorismo. Mostrou uma realidade farta, que é a desvalorização da vida, a consolidação da violência direta e indireta, a destruição da emoção das famílias através das percas dos nossos entes queridos. É a dor das mães e pais que não criaram seus filhos para matar e nem para ser morto. A realidade que os farta, é a de um país sem perspectiva para com sua dignidade e seu povo. Se destaca uma polêmica naquele desfile, que é a Ala do arrastão. Onde os meninos eram todos pretos e ou quase pretos. Uma infeliz realidade, pois é assim que somos vistos, e por isso somos maioria nos presídios e a maioria dos homicídios. Não nos veem como somos, mas como querem nos ver. O que precisamos ter é reação: Por que Vidas Negras Importam.

O carnaval acabou, mas a luta continua, 2018 está só começando! Simbora de luta meu povo.

monica-custdio

Mônica Custódio é secretária de Combate ao Racismo da CTB e diretora do Sindimetal-Rio

*Portal CTB

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