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Contagem regressiva: Contee abre série sobre a Copa

2 de junho de 2014

Faltando poucos dias para a
abertura da Copa do Mundo de 2014, a Contee dá início a uma série de textos,
matérias e entrevistas sobre o mundial de futebol e as discussões acerca do que
ele representa de fato para o Brasil. 

O primeiro artigo foi escrito
pelo diretor teatral, documentarista e escritor Marcus Faustini para sua coluna
no jornal O Globo. Vale a pena conferir e refletir! 

Não vai ter culpa* 

Por Marcus Faustini 

Que o manifestante não seja preso
e que o torcedor não seja hostilizado nesse junho que se apresenta. 

É possível torcer pela seleção de
futebol brasileira, não abrir mão de celebrar a realização da copa no Brasil e
ter pensamento crítico sobre toda lógica de mercado, com violações e
desigualdades disparadas por ela. Por outro lado, é possível apoiar as
manifestações por mais direitos e democracia, participar nas redes ou nas ruas,
e não fazer coro com a narrativa capciosa que diz que nada mudou neste país e
que incentiva por vezes o caos, para estratégias eleitorais conservadoras,
distantes do que dizem as ruas. Sei que é a invenção de um lugar que não é
fácil, mas necessário. 

O professor de geografia da
escola pública onde estuda minha filha ainda não conheço pessoalmente, mas, ao
participar em casa dos trabalhos inventados por ele, acompanho todo seu esforço
de formação crítica e promoção criativa do prazer de aprender. Trouxe para a
turma dela, na última semana, um instigante desafio. Pesquisar e apresentar em
sala os legados da Copa. Os ruins mas também os bons. Fiquei intrigado e achei
interessante o relato de minha filha sobre a ênfase dada por ele na busca e no
entendimento de bons legados. Um forte incentivo de pesquisa das contradições,
além do que se apresenta de imediato, visto que até agora só havíamos
conversado sobre o legado ruim. Animador! E isso não mudou em nada o
entendimento desta adolescente com a necessidade, sempre conversada aqui em
casa, de se posicionar e agir na superação das desigualdades. Proporcionou,
sim, mais densidade na sua fala. 

Nessa mesma semana um jovem
artista ativista, no relâmpago de seus vinte e poucos anos, comentou que sempre
foi ligado ao futebol-encorajador de seu pensamento de alegria compartilhada
que hoje embala suas ações urbanas. Porém, estava um pouco amuado com algumas
situações, em que seus pares de geração diziam que ver jogo durante a copa é
coisa “de coxinha” — a maior das diminuições destes tempos de engajamento dos
flyers de timeline. 

Apesar de um pouco constrangido
com esse lugar de conselho — nunca podemos nos levar tão a sério — mas pensando
na estratégia do professor de geografia, que aposta na complexidade, comentei
que era possível assistir aos jogos sem culpa, torcer e na sequência estar nas
ruas ou nas redes celebrando e se manifestando. Que a política é também essa
capacidade de agir recombinando coisas que estão separadas, inventar caminhos
novos, outras presenças. Que foi isso que aconteceu em junho passado e nos
rolezinhos, ocupas etc. Esse debate precisa ser feito junto com seus amigos,
com alegria, sem opressão. 

O esporte promove a liberdade do
desenvolvimento de potencialidades físicas de um corpo, a sua pedagogia traz
aprendizado de pactos através de regras e ludicidade da narrativa que embala
vidas, nos une. No século XX, teve importante papel na promoção da paz entre os
povos. Sabemos que o mercado capturou esses sentidos, diminuindo seus melhores
valores ao consumo do mundo do espetáculo. Entretanto, juntar pessoas para
torcer nos jogos é um ato comunitário, também expressão política. Vamos deixar
apenas o mundo-mercado significar este momento histórico? 

Nesse junho que se apresenta, sua
duração será maior que o próprio efeito do solstício que abriga. Intermináveis
dias e noites para o neófito militante que bate no peito na defesa do povo e
carrega corajosamente a faixa do “Não vai ter copa”, e para o torcedor que
deseja gritar hexaaaaaaaa campeãoooooo. Que os dois se misturem sem culpa. Que
o manifestante não seja preso, que o torcedor não seja hostilizado por quem se
acha “dono da verdade máxima para o bem da Humanidade”. 

Vamos deixar a culpa para quem
não fez diálogo com os movimentos sociais e culturais que alertaram desde
sempre para o legado de desigualdades, que poderia ser evitado. Deixar também
para quem criminalizou manifestantes, para quem é contra a cota nas
universidades, pra quem é homofóbico, pra quem não gosta deste Brasil com
classe média ampliada nos aeroportos. E também, por que não dizer, para quem
quer ser esse dono da verdade, com o argumento de ser o supermilitante. Esse
gosta de categorizar quem é revolucionário ou não, da mesma maneira que o
conservador — que não quer mais mudanças — chama qualquer manifestante de
vândalo. Estão juntos, na falta de alegria com as diferenças de modos de agir e
de pensamento complexo sobre os acontecimentos. 

Não vai ter culpa! Vale torcer
pelo Brasil em campo e na política. 

*O artigo foi publicado
originalmente no jornal O Globo de 27/05/2014 e republicado pelo Portal da
Contee com autorização do autor

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