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Crise freia fusões e aquisições no ensino superior

4 de maio de 2009

Estimativas apontam que em alguns anos os 20 maiores grupos educacionais serão responsáveis por 70% das matrículas.

A onda de abertura de capital, fusões e incorporações no ensino superior privado brasileiro, que começou a ganhar força em 2007, deverá passar por um processo de consolidação neste ano. A crise financeira internacional, que também afeta o setor, é um dos motivos. Enquanto as grandes instituições que puxaram os negócios em 2008 aguardam o resultado das matrículas e das taxas de inadimplência para o segundo semestre, faculdades menores -com dívidas crescentes, pouco crédito na praça e queda nas matrículas – são colocadas à venda. No primeiro trimestre de 2009, ocorreram três transações comerciais no setor – duas delas com entrada de capital estrangeiro. No mesmo período de 2008, foram 33 fusões e incorporações, segundo a consultoria KPMG. “Os grandes grupos, que movimentaram o mercado no ano passado, estão esperando e se consolidando, arrumando a casa para fazer novas investidas”, diz Marcos Boscolo, sócio responsável pelo setor educacional da KPMG.

“Percebemos pela conversa com clientes e pessoas do setor que eles estão trabalhando para buscar novas opções de aquisições e algumas de fato vão acontecer no segundo semestre.” Uma das que pretende se expandir ainda este ano é o Mackenzie, que tem colégio e faculdade em São Paulo, além de oferecer ensino básico em Brasília. “Enxergamos uma oportunidade de crescimento na crise e estamos atentos, fazendo prospecção de mercado”, afirma o diretor-presidente da instituição, Adilson de Morais.

Segundo ele, o objetivo é a expansão para outros Estados ainda este ano, seja pela compra de uma instituição ou pela abertura de um novo campus.

A Veris Educacional, que controla as faculdades Ibmec de Brasília, Minas e Rio, além da IBTA, também afirma procurar novas oportunidades para crescer. Em 2008, o grupo fez duas aquisições no mercado e pode fazer outra este ano. Além disso, pretende abrir novos cursos no campus de Brasília.

O panorama atual, com participação de fundos de investimento e grupos estrangeiros, leva a uma concentração ainda maior do setor, que tem cerca de 4 milhões de estudantes. Estimativas apontam que em alguns anos os 20 maiores grupos educacionais serão responsáveis por 70% das matrículas.

Por exemplo, o GP Investimentos comprou 20% da Estácio de Sá, o UBC Pactual tem 38% das Faculdades do Nordeste, de Fortaleza, o Fundo Pátria tem participação na Anhanguera.

Numa das aquisições feitas neste ano, a Cartesian Group comprou parte do grupo nordestino Maurício de Nassau. Sem contar a participação do Capital Group no grupo Kroton e da Laureate no controle da Anhembi Morumbi – um dos primeiros grupos internacionais a entrar na área no Brasil.

Na outra ponta, endividados, demitindo professores e com risco de falência estão grupos como a São Marcos e a Universidade Ibirapuera, em São Paulo, comprada pelo grupo paranaense Campos Andrade após não pagar funcionários e reduzir o número de alunos de 12 mil para 6 mil. Porém, a própria Campos Andrade passa por dificuldades e teve um prédio leiloado no início do ano.

Incógnita Em meio a essa consolidação em grandes grupos, a sobrevivência das pequenas instituições ainda é uma incógnita – e delas depende o ensino privado em muitas cidades pequenas do País.

“Essas instituições precisam de ajuda, em muitas regiões elas são as únicas que oferecem ensino superior”, diz o consultor Carlos Monteiro, da CM Consultoria. “Precisamos discutir como financiar esse ensino superior, que está fora do alvo dos grandes grupos, que pensam em escala”, afirma.

Uma tentativa para abarcar instituições da área é o anúncio de uma linha de crédito criada pelo BNDES para socorrer as instituições – uma reivindicação liderada pelo sindicato das instituições privadas de São Paulo, Semesp. Um dos focos dos recursos são as instituições de pequeno e médio porte, com capacidade para 2 mil alunos.

Porém, sua eficácia é polêmica. “Essas dificuldades não são conjunturais, pois não decorrem da crise mundial. São dificuldades estruturais, que resultam do excesso de vagas em relação à demanda do mercado”, diz o economista do Mackenzie Paulo Dutra Costantin.

Expansão causou problemas Os problemas das universidades particulares começaram muito antes da crise internacional estourar nos mercados financeiros. Desde metade da década de 90, quando houve uma mudança na legislação, muitas instituições começaram a se expandir sem planejamento, abrindo novos cursos, construindo unidades e aumentando a oferta de vagas.

Faltou profissionalismo na gestão de muitas delas, que se endividaram para conseguir essa expansão, e tampouco enxergaram a evolução do ensino médio no País. Por exemplo, o número de estudantes do ensino médio em 2007 foi de 1,7 milhões – em 2003, foram 2,1 milhões de formandos.

Com menos estudantes e vagas sobrando, iniciou-se para muitas delas um processo de competição de preços, com redução constante das mensalidades, principal fonte de receita das instituições. Somado ao aumento do índice de inadimplência, muitas instituições perderam escala, capital de giro e qualidade.

Fonte: Agência Estado Publicado em 29/04/2009

 

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