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Crítica: escolas boutique vendem alienação a peso de ouro

14 de dezembro de 2017

Educação privada transforma-se em mercado de serviços e a oferta pouco se distingue das estratégias de propaganda de hotéis de luxo ou resorts à beira-mar.

Foi-se o tempo em que pais de classe média e alta escolhiam escolas particulares baseados apenas na tradição. A educação básica privada transforma-se progressivamente em um mercado de serviços como outro qualquer, e a oferta de “experiências perfeitas”  às crianças pouco se distingue das estratégias de propaganda de hotéis de luxo ou resorts à beira-mar.

O mercado de serviços educacionais – é disso que se trata – de grandes cidades brasileiras vem sendo sacudido pela inserção de novos “players”  – assim se denominam – e atraindo investimentos de grupos nacionais e estrangeiros de “private equity” ou mesmo de “venture capital”. A educação básica imita o ensino superior e entra na bolsa de valores, ou stock market, melhor dizendo, com todas as regras de “compliance” e promessas de ganhos de “market share”.

Anglicismos adentro, os nomes de algumas novas escolas a serem inauguradas em São Paulo e no Rio de Janeiro reiteram a tendência: New York Avenues, Concept, International School, e por aí vai.

Mas há uma importante diferença no “target” entre o ensino superior privado e as novas escolas particulares. Enquanto os centros universitários – eufemismo para uma reunião pouco consistente de faculdades técnicas – miraram o consumidor de baixa renda – o “lower income”, para não destoar – e os subsídios governamentais do Prouni, as escolas tentam seduzir o segmento “premium”, a “upper class”.

Os projetos pedagógicos das escolas boutiques, ou colégios de charme, embalam em papel dourado e salas de aula projetadas por famosos designers tendências de metodologia ativa presentes no horizonte educacional desde pelo menos os anos 1960. O aluno como protagonista, a interação como princípio da aprendizagem, a construção de conhecimento por meio de projetos de investigação. Nada de novo aqui, e nem é isso mesmo o que essas escolas querem vender.

Suas estratégias de marketing mobilizam sem maior receio – ou vergonha – o conceito de exclusividade, como os bancos prime ou algumas pousadas em Trancoso. Esse é o verdadeiro objeto de desejo dos potenciais clientes das escolas boutique.

Afinal, para formar cidadãos de um mundo globalizado, os futuros líderes do século XXI – a quem a plebe rude e ignara está fadada a obedecer -, é necessário cobrar mensalidades na faixa de oito mil reais por mês, fora uma taxa de matrícula ou de adesão de outros tantos mil reais.

Assim estão a se formar verdadeiros clubes privados de ensino, escolas de empreendedorismo e criatividade (leia-se, negócios), jardins da infância financeirizada e higienizada, cujo acesso é, certamente, exclusivo: longe de gente esquisita que não circula no Clube Pinheiros ou no Jockey, nem vai esquiar em Aspen no carnaval.

Não, essas escolas não se destinam a formar líderes, mas patrões. Não pretendem formar cidadãos globais, mas elites que mandam a partir de espaços delimitados e cercados, muito distantes da realidade diversa e multifacetada do mundo dito globalizado. Esses estabelecimentos não se destinam a uma integração com a realidade contemporânea, mas com uma pequena parcela desta realidade, a que vive nos melhores bairros, tem acesso ao maior número de recursos, seja em Manhattan, seja nos Jardins ou na Barra da Tijuca.

Escolas de alienação, isso sim, compradas a peso de ouro.

José Ruy Lazano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Cipi (Conselho Independente de Proteção à Infância).

Fonte: Carta Educação

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