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Desvalorização da mulher no mercado de trabalho reflete na pobreza do país

8 de março de 2013

Elas ocupam a posição de “chefe da casa” em quase metade dos domicílios brasileiros. Elas trabalham e são as responsáveis pelo sustento dessas famílias. E são essas mesmas mulheres que são alvo de discriminação no mercado de trabalho, recebendo salários mais baixos que os dos homens.

 

 Nem é preciso pegar a calculadora para fazer as contas: a desvalorização da mão-de-obra feminina diz muito sobre a pobreza no Brasil. A conclusão é da socióloga e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre a Mulher da UFMG, Marlise Matos, que critica também a divisão sexista das profissões no Brasil.

 

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Minas Livre traz o tema para a entrevista da semana. Além da questão do mercado de trabalho, Marlise Matos comenta a violência contra as mulheres, a exposição delas na mídia e faz uma análise do governo Dilma Rousseff.

 

 

ML – Por que a violência contra a mulher continua sendo uma realidade ainda tão presente em nossa sociedade?

 

 MM – A sociedade brasileira é uma sociedade violenta. Eu trabalhei alguns anos na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e vi que os índices de criminalidade só aumentam ano a ano. Temos um padrão de interação social em que as pessoas se comportam de maneira agressiva. A gente expele uma imagem de um povo cordial, alegre, do Carnaval e essa não é a verdadeira imagem do brasileiro. O que tem me preocupado muito é o crescimento do assassinato de mulheres. Nós estamos no meio do julgamento do caso Bruno, pelo assassinato da Eliza Samudio, e essa história em Minas Gerais é absolutamente recorrente. Em Belo Horizonte não só está aumentando o relato dos casos de violência contra a mulher, como também tem aumentado o número de casos. As causas são múltiplas, mas eu destaco fundamentalmente uma cultura machista, tradicional, conservadora que coloca as mulheres em condição de objeto e não de sujeito. Isso ainda existe de uma maneira muito severa, muito permanente e entranhada na cultura brasileira. De acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG, a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Nessa pesquisa, mais de 70% das mulheres disseram que já foram vítimas de algum tipo de violência, não só a física. A gente precisa de uma mudança de mentalidade. Os homens têm que deixar de agir como donos dos corpos das mulheres e respeitá-las como ser humano.

 

ML- Existem outras formas de violência que não seja a física e que talvez nem a própria mulher se dê conta de que está sofrendo?

 

 MM – Sim. Nenhum um homem chega ao ponto de matar uma mulher assim de imediato. Começa quando ele proíbe ela de usar uma determinada roupa, a impede de ela ir em determinado lugar, recrimina porque ela está usando um batom de uma certa cor. Algumas mulheres entendem isso como “olha como ele se preocupa comigo, como ele gosta de mim, como ele tem ciúmes de mim”. E acham que isso é uma coisa positiva, mas não é. Nenhum homem tem o direito de dizer qual roupa a sua companheira deve ou não usar, porque a mulher tem direito sobre o seu próprio corpo. Esse é um direito individual e inalienável. A pessoa pode discordar, mas não pode proibir. Então a violência começa com esse tipo de constrangimento, que é uma forma de violência simbólica. Outra forma de violência moral são as humilhações. É muito frequente maridos que degradam as mulheres na sua condição de mãe, dizendo que ela é uma mãe relapsa, que ela não cozinha direito. Começa assim nessa violência verbal, moral, psicológica e quando você vê já está tomando um tapa. Aí, do tapa você passa para uma briga, toma um soco, uma facada e daí para o homicídio o passo é pequeno. É um processo cíclico, pois é frequente que esse agressor vire para essa mulher, depois de tê-la espancado, e diga “eu estou arrependido, por favor me perdoa”. Aí passa um momento romântico, a relação se estabiliza novamente, passa dois ou três meses e o ciclo se reinicia. E aí vem a pergunta que todo mundo faz: por que elas continuam nesses relacionamentos? Boa parte delas tem uma dependência econômica, mas elas também têm uma dependência emocional dessa relação, às vezes porque têm filhos e a separação implicaria sofrimento para eles. Outra questão importante é que a violência contra a mulher é um fenômeno democrático. Ele não obedece a critérios raciais ou de classe social. As mulheres são agredidas em todas as classes sociais.

 

ML – Como você avalia a exposição da mulher na mídia hoje?

 

 MM – Se a gente vive numa cultura que é conservadora, tradicional, machista e patriarcal, a mídia expressa essa mesma cultura. Ela não está fora desse contexto. Então é recorrente a gente enxergar na mídia um olhar estereotipado sobre a mulher. Ou elas são as donas de casa que cozinham, são perfeitas, mães adoráveis. Ou são as mega-profissionais, ultra-realizadas e para isso se dedicara, se esforçaram, conseguiram por conta própria. E tem ainda a mulher corpo, que é essa coisa do peito, da bunda, essa questão do canibalismo erótico que o Carnaval se incumbe de difundir. Os três estereótipos são reducionistas daquilo que a mulher realmente é. É uma forma minimalista de você dar sentido a uma coisa muito maior, muito mais plural, diversa. A mídia não reflete essa diversidade, ainda está muito amarrada a esses estereótipos. Tem um processo em curso de mudança nesse sentido. Por exemplo, é um dos eixos do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres uma mídia não sexista, mas eu não acho que estamos andando tão rápido nesse contexto como a gente andou em termos de políticas públicas para enfrentamento da violência contra a mulher. É óbvio que você precisa de alguma forma regular aquilo que é exposto para que as nossas crianças não estejam sujeitas a um processo de socialização estereotipado, rasteiro, reducionista.

 

ML – A inserção da mulher no mercado de trabalho melhorou ao longo dos últimos anos?

 

 MM – São duas grandes conquistas do espaço público que as mulheres protagonizaram ao longo no século 19 e consolidadas no século 20: a entrada no mundo da escolarização e no mercado de trabalho. Essas duas coisas têm afinidade: para que as mulheres possam entrar no mundo do trabalho elas têm que se escolarizar. Essa foi uma das primeiras bandeiras do Feminismo que reivindicou o acesso ao processo educacional, que era segredado aos homens. Portanto, sim, as mulheres entraram para escola e isso significa que elas estão mais qualificadas para o mundo do trabalho. Mas isso quer dizer que nós resolvemos todos os problemas? Não, porque essas mulheres vão para a escola e se formam nas profissões segmentadas. Você tem aquela claríssima divisão sexual do trabalho e da profissionalização em nível superior. As mulheres estão onde? Nas profissões vinculadas ao cuidado: psicologia, educação, fisioterapia, enfermagem, serviço social. E os homens estão onde? Na física, na matemática, nas engenharias e por aí vai. É um curto-circuito que a gente continua repetindo: você autorizou a entrada no público? Sim, mas não a qualquer público. Eu acho que esse é um desafio gigante: você ter mulheres em todos os segmentos e em todas as profissões.

 

 A maior parte da população economicamente ativa no Brasil é constituída de mulheres, mas a maior parte dessas mulheres está no trabalho informal ou no emprego doméstico. Temos discriminação salarial concreta. A média de salário da mulher negra é de 6 a 7% menor que o salário das mulheres brancas e a diferença para os salários dos homens brancos é ainda maior. É curioso observar que hoje você tem quase 40% dos domicílios brasileiros chefiados exclusivamente por mulheres. Quase a metade dos domicílios são as mulheres as provedoras, mas são as mesmas mulheres discriminadas no mercado de trabalho. Isso diz muito ainda da pobreza no Brasil.

 

ML – De que forma a eleição de Dilma Rousseff marcou a luta pela valorização da mulher no Brasil?

 

 MM – Sem nenhuma dúvida eu digo que eleger, pela primeira vez na história política desse país, uma mulher para a presidência da república tem um valor social, político, econômico e simbólico. Mas eu acho que ela nos prometeu mais do que cumpriu. Eu tenho acompanhado e é impressionante ver que a Dilma não avançou da forma como nós acadêmicos, feministas e mulheres esperávamos. No discurso de posse ela faz um discurso brilhante que deixou todo mundo emocionado. Ela disse “as mulheres podem, estou aqui para honrar esse lugar das mulheres brasileiras”, então a gente imaginou que esse fosse ser um elemento centro de decisão do governo Dilma. Ela prometeu 30% do seu gabinete constituído por mulheres, mas ela não fez isso. Ela trouxe muitas mulheres, mas não conseguiu colocá-las em número expressivo. A Dilma colocou a primeira mulher feminista à frente da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, que é a Eleonora Menicucci, mas eu não tenho visto um protagonismo específico dela. A Dilma foi fortemente cerceada por forças muito conservadoras e ela acabou sendo capturada por isso. Os dois grandes programas da Dilma, Rede Cegonha e Brasil Carinhoso, trazem à tona essa coisa da mulher reprodutora. Não tenho nada contra programas de apoio à maternidade porque eu entendo que a mulher materna. Mas a Dilma poderia ter tido iniciativas de políticas públicas mais ricas e plurais. Não dá pra ser só isso. Não dá pra ser a primeira mulher na Presidência da República Brasileira e só ter feito programas sócio-assistenciais ligados a esse caráter familista e reprodutivista da mulher.

 

ML – Qual a importância dos movimentos sociais na luta pela valorização da mulher?

 

 MM – Eles têm uma importância estratégica. O Estado Brasileiro é patriarcal, não existe Estado neutro, isso é uma balela, uma ficção. Portanto, como esse Estado com essas características patriarcais vai ser transformado? Você tem duas possibilidades: de dentro pra fora, quando os agentes do próprio Estado, reconhecendo essas características patriarcais, fazem uma reforma. A outra direção é a pressão feita de fora para dentro. O Estado tende a ser inercial, a manter-se no tempo e no espaço como sempre foi, então a mudança de dentro pra fora é muito difícil. Dessa forma, a transformação vinda dos movimentos sociais é estratégica. Belo Horizonte tem movimentos muito organizados e as mulheres têm pressionado. No julgamento do caso Bruno mesmo as mulheres de Contagem estavam lá se manifestando. É necessário que os movimentos continuem usando essa estratégia de pressionar o Estado Brasileiro para as transformações.

 

Fonte: Portal Minas Livre -Thaíne Belissa

Foto: www.observatoriofeminino.com.br

 

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