Notícias

Educação a distância

14 de junho de 2017

O papel docente colocado em cheque na EaD: o que há de tão especial na modalidade a distância?

Ângela Maria da Silva Gomes

Junho 2017

O ensino a distância foi introduzido no Brasil com os mais diversos argumentos: o da dimensão territorial, descentralização do ensino, acessibilidade à educação em regiões distantes, entre outros. A Educação a Distância (EaD) se disseminou no Brasil somente nas últimas duas décadas. Talvez, por esse crescimento ainda ser recente, os programas em EaD têm suscitado diversas controvérsias e temores entre aqueles sujeitos que se dedicam ao trabalho e reflexão sobre o campo dos direitos trabalhistas.

Dentre os temas em debate atualmente, o impacto das atividades de EAD sobre o trabalho docente é um dos que mais têm merecido atenção. Especialmente quanto aos riscos trabalhistas que os programas em EaD envolvem: o aumento da carga de trabalho dos docentes, as novas exigências impostas pelo uso das tecnologias digitais, o “empobrecimento” da mediação pedagógica por meio da atuação da tutoria, precarização do trabalho em termos de condições de trabalho, violação de direitos autorais, entre outros. Alguns educadores mais críticos chegam a temer pelo futuro da profissão docente, indicando a possibilidade de redução das funções do professor por meio de sua substituição pelas tecnologias de informação e comunicação (https://www.ufrgs.br/soft-livre-edu/trabalho-docente-na-educacao-a-distancia/).

É claro que há a possibilidade de uma adaptação em materiais mais flexíveis, como hipertextos e videoaulas (em comparação a outros materiais mais permanentes, por exemplo, livros impressos e audiovisuais mais elaborados), e, além disso, também é preciso reconhecer os limites impostos pela produção desses materiais, que, lamentavelmente, não permitem o seu constante repensar e refazer.

Para além dos argumentos governamentais e empresariais capitalistas, enquanto sindicalistas, podemos afirmar que o fenômeno de disseminação da Educação a Distância trouxe impactos sobre o trabalho docente, principalmente no que se refere às condições de seu exercício e nas suas relações com o tempo e o espaço de trabalho. Dessa forma, a premissa da qual se parte é que a Educação a Distância tem promovido uma crescente precarização no trabalho docente, tendo em vista a sobrecarga de atividades que ela traz ao professor, associada à falta de regulamentação das relações trabalhistas em ambientes virtuais e domésticos.

O professor, ao aceitar trabalhar na modalidade a distância, enfrenta uma série de desafios acrescidos dos que já enfrenta no ensino tradicional. Ele arrisca olhar o novo, em uma educação mediada e dependente do uso de Tecnologias da Informação”. Em Aberto, Brasília, v. 23, n. 84, p. 79-97, nov. 2010 82 e Comunicação (TIC), mas tem como referência e prática a realidade do ensino presencial, em que ele está relativamente à vontade, pois ali tem parâmetros e história. Suas referências foram construídas desde a sua experiência como aluno, depois, nos cursos de formação de professores e, principalmente, na sua prática docente no contexto escolar. É com essa bagagem que ele é desafiado a olhar o novo.

Acrescenta-se ainda que, a cada semestre, muitas escolas privadas compram programas novos que implicam em novos tempos de aprendizados, e novas ameaças de demissões pelo fato de os professores não terem feito os lançamentos on –line “nos tempos solicitados” .

Por outro lado entendemos que essa é uma bagagem que deve mesmo ser trazida, para evitar correr o risco de pensar que a EaD é uma outra coisa que não a própria educação. Portanto, é necessário primeiro reconhecer que este é o ponto de partida do professor, para compreender suas determinações e tentar identificar, então, as possibilidades de outras e diferentes leituras desse contexto.

No que concerne ao professor, as diretrizes financeiras determinam também o papel docente na EaD. A docência, distribuída em diferentes papéis, como o de professor e o de tutor (a distância e presencial), está definida em resoluções que enquadram esses profissionais como bolsistas que sequer têm direito a uma declaração do trabalho que realizam como professores, devido à possível consolidação de vínculos empregatícios não desejados, como é o caso de professores de idiomas. Tal precarização do trabalho docente se desdobra, na prática, entre outras coisas, por meio da baixa remuneração, que exclui profissionais qualificados, e da falta de reconhecimento profissional. Complementarmente, configura-se a implantação de uma política pública nacional, que define o papel dos tutores como não docentes (Em Aberto, Brasília, v. 23, n. 84, p. 79-97, nov. 2010 80).

A conclusão é que essa política padroniza os projetos de cursos pela EaD e não acolhe propostas com outras concepções, eliminando, assim, a possibilidade de reconhecimento do trabalho profissional do professor na modalidade a distância.

São diversos desafios no caso da EAD no setor privado:

  • O número excessivo de alunos por professor, em alguns casos chegam a 1000 alunos para cada professor;

  • Ausência de horário de trabalho: as orientações ao aluno funcionam como banco 24 horas, uma vez que até de madrugada o professor pode receber demandas. O marketing do setor privado de ensino para atrair os alunos é que os mesmos terão atendimento e orientação 24 horas.

  • Mesmo que o marketing do EAD seja com discursos pseudo libertários das diversas pedagogias emancipatórias (pedagogia da autonomia, educação libertária, educação como prática da liberdade), na prática a rede de ensino privada está rompendo com a educação enquanto processo de socialização e humanização.

  • O primeiro desafio surge já na preparação do curso. A EaD quebra as antigas estruturas de tempo e espaço da docência. Não apenas no afastamento físico do professor e do aluno, que, em princípio, deve ser dirimido pelo uso de recursos tecnológicos, mas também no afastamento temporal entre planejamento e execução do processo de ensino e de aprendizagem, isto é, do pensar e do fazer da prática docente.

  • Modelo de aulas blended (semipresencias): nessas, os alunos pagam por 4 horas de aula e o professor só recebe 2 horas, sob o argumento de que parte do material de aula já está on-line.

    Aulas invertidas e direitos invertidos

    Outro detalhe é que no ensino privado não há mais as separações entre conteudistas e tutores. Com o pressuposto que a produção de material didático faz parte do trabalho do professor que leciona aulas presenciais. Assim, na nova modalidade, a produção de material didático e produção de aulas não presenciais e publicação das mesmas serão feitas pelo professor das disciplinas presenciais, mas sem nehuma remuneração. Os professores das disciplinas presenciais devem produzir, lançar e disponibilizar no sistema on-line, para as escolas: metodologias, conteúdos programáticos, textos, vídeos, slides, aulas no formato não presencial e presencial, sendo que só receberá pelas aulas presenciais. O modelo se denomina “aulas invertidas”.

    As aulas invertidas encobrem Aulas de EAD sem remuneração, dentro de aulas presenciais. Nela o professor produz, elabora e disponibiliza :

1) uma “PRÉ-AULA” para o aluno, com metodologia, material didático e publicação on-line;

2) uma “AULA” para a sala de aula, também com metodologia, material e publicação on-line, para acompanhamento de sua aula presencial;

3) Uma “PÓS-AULA” também com metodologia, material e publicação on line, para acompanhamento de sua aula presencial.

Neste caso, o professor recebe por uma única aula presencial e as 2 aulas (pré-aula e pós-aula), que são tipicamente aulas de EAD, não são remuneradas. Acrescenta-se ainda que o professor, ao publicar seu material, deverá confirmar que abre mão de direitos autorais e que a publicação fica de posse da instituição privada em que trabalha.

Assim estamos vendo uma pseudo formalização do trabalho de EAD, como se não fosse educação. O que temos que insistir é que o trabalhador da educação a distancia é PROFESSOR, presencial ou não. Por trás da modernidade da tecnologia, estão ocultando docência sem remuneração e transferência de funções, na medida em que a cada dia aumentam o trabalho de administração escolar para o professor e diminuem os trabalhadores da secretaria, laboratórios e toda administração escolar.

O aumento de demandas escolares fora do horário de trabalho, denominado de APOIO AO PRESENCIAL, encobre também cargas horárias de trabalho excessivas realizadas em casa, sem testemunhas, o que dificulta no caso de ações trabalhistas. Nas orientações de monografias, por exemplo, o professor do ensino superior receberá R$200,00 por 4 (quatro) meses de trabalho, trabalhando até 4 horas semanais (presenciais e semipresenciais), ou seja, menos de R$ 3,00 por hora de trabalho. É bom lembrar que são profissionais com curso superior e a maioria com mestrado.

Considerando o forte caráter de flexibilidade espaço-temporal das atividades pedagógicas da educação a distância, parece crucial que este seja o centro da análise. Nomenclaturas diversas não mudam que as condições de precarização sejam denominadas de: apoio presencial, aulas invertidas, aulas blended, ensino a distancia… O certo é que os professores estão perdendo direitos e a educação perdendo qualidade para o mercado mercantilista da educação.

Os espaços e tempos de trabalho da educação (presencial) passam por um completo redimensionamento com o advento do trabalho docente na EaD (especialmente na EaD virtual). É fundamental partirmos da compreensão de que os tempos e espaços escolares constituem fatores fundamentais para a compreensão do processo de trabalho pedagógico, inclusive para o seu desenvolvimento. Compreender o significado do espaço tempo na vida escolar e o seu sentido para o trabalho tem ganhado progressiva relevância. Isso implica reflexão sobre a lógica espaço-temporal que orienta a organização do trabalho escolar. Há muito a ser pensado entre o secular espaço da sala de aula (lugar privilegiado para o ensino-aprendizagem e para a atuação docente) e o espaço simulado dos ambientes virtuais de aprendizagem (“novo espaço” de trabalho docente). Há muito por entender entre os fragmentados tempos educacionais em momentos para a aula, para o recreio, para a disciplina de história, de matemática, etc. e os flexíveis tempos da educação na contemporaneidade – em especial, na educação à distância (EaD).

Por trás do marketing da flexibilidade de espaço e tempo, cabe um alertar que é o direito a conviver com a familia, amigos, descanso e lazer, direito ao tempo livre, que vem sendo sacrificado e retirado com o discurso de “trabalho em casa”.

Cabe lembrar que as senzalas também eram próximas da casa grande, entretanto, ali, cruelmente, todos os direitos humanos eram violados. Assim caminha a EAD com os direitos trabalhistas.

https://www.ufrgs.br/soft-livre-edu/trabalho-docente-na-educacao-a-distancia/

COMENTÁRIO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Artigo
Ciência
COVID-19
Cultura
Direitos
Educação
Entrevista
Eventos
Geral
Mundo
Opinião
Opinião Sinpro Minas
Política
Programa Extra-Classe
Publicações
Rádio Sinpro Minas
Saúde
Sinpro em Movimento
Trabalho

Regionais

Barbacena
Betim
Coronel Fabriciano
Divinópolis
Governador Valadares
Montes Claros
Patos de Minas
Poços de Caldas
Pouso Alegre
Sete Lagoas
Uberaba
Uberlândia
Varginha