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Eleição coloca em disputa os rumos da educação brasileira

9 de setembro de 2026

Em poucos dias, as eleições chegam à reta final, e o assunto vai ocupar ainda mais as ruas, as redes sociais e boa parte da atenção e do debate público no país. Daqui a menos de um mês, os brasileiros voltam às urnas para escolher deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro e, onde houver necessidade, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

Mais do que definir nomes para os próximos quatro anos, a eleição representa uma disputa sobre projetos de país e sobre as prioridades que serão adotadas pelo poder público. Para o cientista político Juarez Guimarães, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, o que está em jogo nestas eleições é a defesa da democracia e da soberania nacional.

“Estão em jogo a liberdade dos brasileiros, a nossa capacidade de manter uma sociedade politicamente plural, socialmente e religiosamente plurais, e continuar trabalhando as políticas públicas que visam a diminuir a desigualdade social, a desigualdade de gênero e a desigualdade racial. É o próprio fundamento da democracia e da soberania brasileira que está em jogo nestas eleições”, pondera o cientista político.

De acordo com o professor, o momento exige dos eleitores atenção não apenas às promessas de campanha, mas à coerência entre o discurso dos candidatos e suas trajetórias e posições que efetivamente defendem. “Porque muitas vezes os políticos vêm a público defender questões apenas para agradar ao eleitorado, em completa contradição com suas posições públicas. Por exemplo, o fim da escala 6×1, que vem recebendo apoio de mais de 70% dos brasileiros. Veja bem, vários partidos que apoiam a extrema direita são contrários à redução da jornada. Eles vão se declarar publicamente contra ela? E isso vale para muitos outros temas fundamentais. Políticos que operam contra a Previdência pública, contra os direitos dos trabalhadores, das mulheres”, ressalta Juarez Guimarães.

Em uma eleição marcada por forte polarização e pela grande circulação de conteúdo nas redes, Guimarães considera fundamental o letramento midiático: a capacidade de identificar fontes confiáveis, confrontar informações e escapar das fake news e da desinformação. Segundo ele, o eleitor precisa buscar diferentes fontes, comparar programas e verificar a credibilidade daqueles que apresentam compromissos políticos.

Projetos em disputa na educação
Na área da educação, as escolhas feitas nas urnas vão influenciar diretamente questões como o financiamento das redes de ensino, a estrutura das escolas e universidades e as políticas de investimento em ciência e tecnologia. Para o pesquisador em educação Luciano Mendes, professor visitante da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um dos principais desafios dos próximos governos será enfrentar questões estruturais da educação brasileira, como a valorização da carreira docente, por meio de melhores salários e condições de trabalho.

“Nós ainda pagamos um dos piores salários do mundo aos professores da educação básica no Brasil”, avalia o pesquisador, que também aponta a necessidade de combater a militarização das escolas públicas. Ele ressalta que a escola deve ser um espaço de democracia, diversidade e debate, conduzido por profissionais da educação. “Essa é uma das tarefas mais urgentes. É preciso que a escola seja um lugar de profissionais da educação e não de militares”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, existem diferentes projetos em disputa em torno da educação. De um lado, ele identifica posições que considera contrárias à escola pública, à ciência e à liberdade dos professores. De outro, aponta a influência crescente de setores empresariais e fundações, que se dizem favoráveis à educação, mas defendem uma escola alinhada às necessidades do mercado, do empresariado e do grande capital.

Em contraposição a esses projetos, o professor destaca a atuação de movimentos sociais e sindicais, que defendem uma escola pública, laica, democrática, inclusiva e igualitária, com valorização dos profissionais da educação. “Esse é um grupo que tem mantida acesa a esperança, aquela esperança que nos dizia Paulo Freire, de esperançar a escola, esperançar o Brasil, com a sua luta árdua, dos movimentos sociais, dos coletivos da cidade, do campo, da periferia, de todas as populações marginalizadas desse país”. De acordo com o professor, essa disputa reaparece a cada eleição nos programas dos candidatos e nos grupos que os apoiam.

Compromisso com os professores
Para a presidente do Sinpro Minas, Valéria Morato, essa dimensão da eleição precisa estar presente também na decisão dos professores diante das urnas. Ela defende que a categoria escolha candidatos comprometidos com a democracia, com a valorização dos docentes e a regulamentação do setor privado de ensino. “Os professores devem escolher candidatos e candidatas que defendam uma educação transformadora, que passe necessariamente pela valorização dos professores e professoras, com melhores salários e condições de trabalho, tanto no ensino público quanto no setor privado”.

Ela ressalta que muitas das questões que interferem diretamente no cotidiano da categoria, como remuneração, liberdade de cátedra e outras políticas de valorização profissional, são definidas pelos parlamentares, por meio de projetos de lei aprovados no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas. “Por isso não basta escolher apenas quem ocupará o poder executivo. É necessário conhecer também as posições e os compromissos dos candidatos ao legislativo. Saber se eles defendem uma educação de qualidade, socialmente referenciada e pautada pela valorização da nossa categoria”, afirma Valéria Morato, que critica a proposta do homescholling e o discurso de certos setores da sociedade, de que professores “tentam doutrinar” estudantes no ambiente escolar.

“Essas ideias precisam ser fortemente enfrentadas. São discursos que desvalorizam quem dedica a vida à educação e servem para justificar propostas que enfraquecem a escola como espaço de convivência, de diversidade e de formação crítica. Professor não está na sala de aula para impor pensamento, mas para ensinar, provocar perguntas e apresentar diferentes perspectivas. Quem teme estudantes capazes de pensar por conta própria deveria explicar por que tem tanto medo da escola, dos professores e do conhecimento”, diz Valéria Morato.

A educação, destaca a presidenta do Sinpro Minas, deve ser pensada em conexão com as demais prioridades e áreas dos governos. “Ela não pode ser vista de forma isolada. A educação está diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico e social, à democracia, à formação cidadã e à de redução das desigualdades. Por isso as escolhas nas urnas são tão importantes. Elas definirão quais serão as prioridades para as escolas, universidades, professores, estudantes e comunidade escolar, com impactos em toda a sociedade nos próximos anos”.

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