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Opinião: Imaginar o novo

30 de janeiro de 2026

Estamos no fim do período de férias. É possível que alguns já estejam se organizando para o retorno ao trabalho: revisitando planejamentos, separando materiais, criando pastas “2026” para organizar os trilhões de arquivos (provas, atividades, planilhas de acompanhamento, relatórios etc.); tudo já separadinho por bimestre, trimestre ou semestre, pronto para receber os .docx, .xlsx, pptx e PDFs do ano.

Bom, eu não sou essa pessoa.

Muita coisa passa pela cabeça nestes últimos dias de férias. Bate uma ansiedade, uma vontade de deixar tudo resolvido e encaminhado. Mas eu tento não me antecipar. A escola já exige tanto de nós no cotidiano do ano letivo que meu esforço consciente é respirar fora desse universo pelo máximo de tempo possível. É o meu sintoma. Fazer o quê?

Ainda assim, e apesar de todo o esforço em manter a escola à distância, nesta última segunda-feira de férias um pensamento me atravessou: como sonhar tem se tornado um exercício difícil para nós, professores, e como isso é absurdo, quase contraditório, diante do sentido do nosso trabalho.

Quando falo em “sonhar”, não me refiro a idealismos ingênuos e/ou fantasias desconectadas da realidade. Falo da capacidade concreta de imaginar alternativas e de buscar construí-las coletivamente. Sonhar, nesse sentido, é trabalho. É matéria-prima do nosso ofício.

Chegamos à docência cheios de sonhos. Não duvidamos, ao menos no início, da nossa capacidade de intervir no mundo. Nos primeiros tempos, somos capazes de imaginar possibilidades, de enxergar frestas numa realidade dura, desigual e pouco convidativa. Caçamos aqui e ali brechas para fazer convergir a rotina escolar exaustiva com algum projeto de sociedade. Mobilizamos repertório acadêmico ainda fresco, o resultado de horas de leitura e discussão, para pensar aulas que tenham, de fato, potência transformadora. E esperamos de nossos colegas professores que estejam igualmente implicados.

Não muito tempo depois, algo muda. Entramos em piloto automático. O sonho, que era nosso horizonte, vai ficando para trás, visto só no retrovisor. Nossas energias são drenadas no corre do dia a dia: essa luta cotidiana, precária e exaustiva, pela sobrevivência e pela dignidade. Impomos a nós mesmos uma autocensura tão brutal que não calamos apenas a boca, mas silenciamos o coração. Para evitarmos mais problemas do que os que nossa exigente rotina já nos traz, recuamos em nossas aspirações e nos podamos para nos encaixarmos no que já está posto.

Mas convém dizer com todas as letras: essa perda da capacidade de sonhar não é falha individual, nem falta de vocação, nem fragilidade emocional. Tampouco é uma exclusividade da nossa categoria profissional. Ela é produzida.  Fazer-nos acreditar que não há alternativa para o que está posto, que é isso ou pular do barco, é como o sistema funciona. Ele opera com professores competentes, dedicados, mas permanentemente exaustos, logo, com pouca energia para crítica e incapazes de imaginar que as coisas podem ser diferentes.

Note essa contradição. Nós, professores, temos por tarefa cotidiana conduzir os estudantes no domínio do ferramental crítico, na construção de um bom repertório, de modo a capacitá-los para imaginar mundos possíveis, capacitá-los à disrupção (palavrinha da moda). Mas esperam de nós, na escola, a máxima docilidade com a mínima crítica, nos privando até de imaginar lógicas escolares diferentes (quem dirá mundos). É nesse limbo de imobilizadora contradição que muitos de nós estamos.

A situação se torna ainda mais sufocante quando a gestão escolar se fecha em seu próprio narcisismo. Decisões tomadas desde a torre de marfim e movidas pelo interesse de mercado descem como soluções definitivas para todos os males, pelo menos no papel. E papel, como sabemos, aceita qualquer coisa. Só que um “detalhe” é quase sempre esquecido: a escola não é de papel. Ela é orgânica, imprevisível, viva. Um organismo barulhento, atravessado por conflitos, afetos e imprevistos. Impor sobre essa realidade pulsante a lógica estéril do gabinete não é apenas um erro administrativo, é uma forma de violência burocrática.

E toda a rigidez do processo, todo o autoritarismo da gestão, toda a exaustiva rotina, tudo concorre para o nosso distanciamento e, com isso, nosso “ensimesmamento”. Uma palavra estranha que quer dizer que nos tornamos autocentrados, introspectivos, mobilizados apenas por motivos estritamente individuais.

Diante desse cenário, a pergunta que se impõe não é, de imediato, se um novo mundo é possível. Dando um passo atrás, a questão primeira é: ainda somos capazes de imaginar um novo mundo? Recuperar essa capacidade não é tarefa individual, nem gesto espontâneo de boa vontade. É uma tarefa coletiva que demanda algum esforço e certo grau de comprometimento.

É para tentar sobreviver a toda essa aridez destes nossos tempos que proponho um exercício simples, embora profundamente político: estreitar nossos vínculos. Criar, com cuidado e constância, situações de convivência em que conhecemos e nos damos a ser conhecidos. Espaços seguros em que acolhemos e somos acolhidos nas dores comuns da nossa profissão, nas dores comuns dos trabalhadores. São esses os mesmos espaços que nos permitem, fortalecidos no coletivo, imaginar alternativas e sonhar com o novo, com o que pode superar essa nossa condição.

Esses espaços existem e sempre existiram nos almoços compartilhados, nas conversas durante as caronas, nos botecos depois da reunião pedagógica. Encontros em que podemos ser mais do que funções, metas ou indicadores. Onde falamos das dores do trabalho, mas também das nossas famílias, dos medos, das vidas que seguem para além da escola.

Nesses encontros, as dores encontram acolhimento, propostas de solucionáticas e estratégias são elaboradas. Mais do que isso, percebemos que aquilo que parecia um fracasso individual é, na verdade, uma experiência coletiva. Reconhecemo-nos iguais na exploração, nas frustrações e nos limites. É aí que algo decisivo acontece. Esses vínculos não são apenas terapêuticos. Eles são o terreno onde a consciência e a solidariedade de classe pode ser nutrida.

Essa solidariedade cotidiana feita de lealdade, sigilo e humanidade não resolve tudo. Não substitui a organização coletiva e/ou o enfrentamento institucional. Mas é dela que essas formas mais amplas de ação se alimentam. Sem esses laços, toda organização tende a se esvaziar. Com eles, o “impossível” volta a ser, ao menos, considerado.

Nossa luta, vale lembrar, não é apenas por salário ou melhores condições materiais, embora isso seja fundamental. Ela é também pela reumanização do nosso trabalho e de nós mesmos. É por recuperar a possibilidade de agir juntos, de cerrar fileiras lado a lado em torno daquilo que nos é precioso.

Tenho a sorte de poder dizer que construí bons laços ao longo dos anos de docência. Em cada escola por onde passei, fiz amigos que me permitiram desabafos honestos, acolhimento e conselhos francos. Esses vínculos me lembram, diariamente, de que não estou só e que não estar só não é apenas um alívio emocional, mas uma condição política para seguir lutando.

Quero incentivar você, leitor, a buscar ou construir esses laços onde estiver. Não espere que a instituição os ofereça. Eles nascem nos interstícios, crescem na constância e se fortalecem na confiança.

Confesso: eu queria mais um mês de férias. Não escondo isso de ninguém. Mas, se a volta é inevitável, que ela não seja apenas o retorno à escola. Que seja também a retomada desse lugar comum que criamos entre nós: um espaço compartilhado, onde o real deixa de parecer imutável e onde o impossível volta a ser, coletivamente, imaginável. Que sonhemos juntos por mais um ano.

 

Daniel Coelho – Historiador, Professor de História e membro da Diretoria do Sinpro Minas

COMENTÁRIO

2 respostas

  1. Um texto necessário! Lúcido e verdadeiro. Ler esse texto me faz ter esperança em dias melhores na educação. Parabéns, professor Daniel, meu amigo!

  2. Texto absolutamente brilhante. Reflexão extremamente oportuna e necessária. Parabéns por nos proporcionar este texto. Julgo que ele deveria ser divulgado para todos os nossos colegas professores.
    Parabéns pela lucidez e serenidade.

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