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Violência contra professores invade escolas particulares

29 de abril de 2009

A violência de alunos contra professores ultrapassou as fronteiras das escolas públicas de periferia e se instalou na rede privada, em colégios particulares de áreas nobres. Uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores de Minas Gerais, que ouviu 2.500 educadores em todo o Estado, mostra que 41% dos entrevistados já sofreram algum tipo de agressão. A maior parte dos agredidos (27%) foi vítima de ameaças, assédio moral ou violência psicológica. Cerca de 5% dos professores denunciaram ter sofrido violência física. De acordo com a coordenadora do estudo, Maria das Graças de Oliveira, o drama dos educadores das escolas particulares é ainda maior porque, em geral, eles não encontram apoio nem da direção das instituições nem dos pais dos alunos. Os docentes têm medo de serem demitidos se denunciarem as agressões. A conclusão do estudo indica que o principal agressor na rede privada é o aluno com alto poder aquisitivo que não respeita os limites e tampouco é repreendido pelos pais.

“A violência é hoje a maior causa de doenças de professores da rede privada, na qual a educação é tratada como mercadoria e o aluno é tido como cliente. Não há mais respeito com o professor, que se sente totalmente nas mãos dos alunos”, disse Maria das Graças. Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-membro do observatório europeu de violência escolar, Luiz Alberto Gonçalves acredita que, na rede privada, o poder econômico se sobrepõe à relação educacional. “Os professores ficam acuados porque podem ser demitidos a qualquer momento. Então, sofrem a violência calados.” A professora universitária R., que trabalha em uma faculdade de Belo Horizonte, ficou com medo de dar aula depois de ter sido ameaçada por um aluno repreendido por ela quando intimidava uma colega grávida. “Ele gritava comigo dizendo que pagava meu salário e poderia fazer o que quisesse. Jogou a carteira no chão e teve de ser retirado por seguranças. Foi uma situação complicada porque, depois disso, fiquei um bom tempo com medo de represálias.

Não é papel do professor universitário ensinar ao aluno como ele deve se comportar. Pressupõe-se que ele já entre no ambiente acadêmico sabendo disso, mas não é o que acontece”, relatou. A Internet também é um meio de violência. A pesquisa recolheu depoimentos de professores que afirmaram ter sido vítimas de agressões feitas pelo Orkut. O site de relacionamentos é usado por alunos da rede privada para expressarem o ódio pelos professores, denegrirem a imagem dos docentes e até combinarem agressões em massa contra eles. Para o especialista da UFMG, a solução para o problema seria o fortalecimento dos sindicatos, a criação de um sistema de ouvidoria dos professores e a mudança no foco do ensino. “Hoje as particulares estão mais voltadas para a aprovação no vestibular, por causa da concorrência, e precisam abrir espaço para um modelo que crie uma consciência de cidadão no aluno”, disse Luiz Alberto Gonçalves.

Frases no Orkut

“Quem nunca xingou o professor em sala de aula tem que tomar coragem para dar o seu grito de autoridade. Aí ele nunca mais vai meter ‘marra’ com você”

“Ela (professora) tem cara de desgraçada, aqueles pneus saindo para fora da roupa, um cheiro de esterco, fora a incompetência”

“Meu professor de história me manda pra diretoria três vezes na semana, mas isso não fica assim não”

——————————————————————————–Depoimento

Entrei em grave depressão”Em setembro de 2005, meu filho menor recebeu um convite para participar de uma comunidade do Orkut (site de relacionamentos na Internet). Quando ele entrou, verificou que, na comunidade, eu estava totalmente agredida, moralmente e profissionalmente e (a comunidade) ainda ofendia meus familiares. Passei muito mal por causa disso. Havia trabalhado normalmente durante todo o dia, o que me fez piorar.

Eu era motivo de risos dentro da sala de aula porque a comunidade estava na rede mundial havia 11 dias. A direção da escola já havia visto (a comunidade) e alguns professores também e eu só fiquei sabendo porque vieram a convidar meu filho. Depois disso, entrei em um quadro depressivo grave, que se arrasta até hoje”.

Professora, 35 anosEDUCADORA em Campo Belo, MG

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Outro lado

Sindicato das escolas nega ocorrência de agressõesO presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep-MG), Ulisses Panisset, disse não ter conhecimento de agressões contra professores. “Esse é um problema que eu não sinto como sendo digno de preocupação”, afirmou. Sobre a pesquisa, o representante das particulares declarou que ainda não foi feito nenhum levantamento idôneo e imparcial sobre o assunto. Panisset negou que as escolas protejam os alunos em detrimento dos funcionários.

Para Nondeilde Ferraz, coordenadora da Escola Palomar, em Lagoa Santa, na Grande Belo Horizonte, o mau comportamento dos alunos, muitas vezes, é falta de disciplina da própria escola. “Em outra escola, um garoto escrevia recados na carteira mandando a faxineira limpar. No outro ano, a escola recusou a matrícula desse aluno. Os pais dele entraram na Justiça e hoje ele frequenta as aulas normalmente”. (EM com Alexandre Nascimento)Fonte: Jornal O Tempo – Publicado em: 18/04/2009

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